173 1.5. Os Anos 60: o fim do professorado e as estátuas equestres

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<ul><li><p> 173</p><p>1.5. Os Anos 60: o fim do professorado e as esttuas equestres </p><p> Esta vai ser a ltima fase de ampla produo escultrica de Leopoldo de Almeida, sendo </p><p>marcada pelo fim do seu percurso enquanto Professor de Desenho e Escultura na Escola Superior </p><p>de Belas Artes de Lisboa. A dcada ser tambm assinalada pela inaugurao do Monumento a </p><p>Nuno lvares Pereira e a deciso do escultor em doar as suas obras Cmara Municipal de </p><p>Lisboa. </p><p>1.5.1. Comemoraes do Infante D. Henrique: Padro e outras representaes </p><p> Em 1960, perante o malogro que foram os concursos para o monumento ao Navegador a </p><p>erigir em Sagres, ser o Padro dos Descobrimentos a ser inaugurado1. Composto por um grande </p><p>friso escultrico, que suportado pela forma da Caravela remete para uma viagem pela Histria </p><p>gloriosa de um Portugal mais elevado, : </p><p> Nada mais justo que entre os actos comemorativos se conte um monumento condigno que celebre a pessoa do Infante e a sua obra2. </p><p>A 17 de Dezembro de 1960, o Ministro das Obras Pblicas, Arantes e Oliveira, condecora os </p><p>operrios que colaboraram na construo da obra, fazendo um elogio rasgado aos autores, </p><p>Cottinelli Telmo e Leopoldo de Almeida: </p><p> (...) cujo talento o Pas tanto deve e tanto mais vir a dever ainda na continuao da sua fecunda e inspirada actividade, a favor do enriquecimento do nosso patrimnio artstico em que j tem to lisonjeira representao3. Ao representar o que lembra uma Caravela prpria da poca de D. Henrique, com a Cruz de Cristo </p><p>bem visvel no seu topo, a obra considerada como rica de inspirao e impregnada de alto e </p><p> 1 A RTP possui uma reportagem sobre a construo do Monumento, feita em 1960. Cf. Documento 600432800. cunhada uma medalha para assinalar a inaugurao, cencebida tambm por Leopoldo. Para os desenhos e a medalha ver fichas de inventrio 436 a 438. 2 Antnio de Oliveira Salazar, O Padro dos Descobrimentos. 3 Cf. Visitas de Estudo do Ministro 1960, fl. 117. </p></li><li><p> 174</p><p> entusistico esprito nacionalista4, o que deve ter contribudo para que fosse edificado para a </p><p>posteridade, sendo ainda hoje, um dos monumentos emblemticos da cidade de Lisboa. Elogiado </p><p>por uns, criticado por outros5, o que lhe concede a carga negativa parece ser o facto de a obra datar </p><p>dos anos 30 e 40, ou seja, concebida num outro contexto e num outro tempo, aproveitada </p><p>posteriori para um fim que no presidiu sua concepo. Esta obra valeu a Leopoldo de Almeida </p><p>ser agraciado com a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa6, entregue no dia 25 de Outubro de </p><p>1961. </p><p> Inevitavelmente inserido no mbito da Arte Pblica, no sentido em que reflecte a resposta </p><p>do artista a um determinado tempo e espao, o Padro dos Descobrimentos vai mais alm, </p><p>podendo ser considerado como uma landmark7, uma vez que identifica a cidade de Lisboa. </p><p>dessa forma que a imagem do Monumento reutilizada inmeras vezes em termos grficos e </p><p>publicitrios, como vimos no captulo anterior, na qualidade de marca identificadora da capital de </p><p>Portugal. </p><p> A representao do Infante no iria cingir-se somente ao Padro, </p><p>concebendo Leopoldo outras variantes do Navegador, destinadas </p><p>sobretudo aos territrios ultramarinos, seja orante8 ou em pose de quem </p><p>comanda9, com uma dinmica diferente dos exemplares anteriores, para </p><p>revisitar a pose que havia sido escolhida para Lagos10. </p><p> Para alm do Padro, grande parte da escultura de Leopoldo pblica, apesar de no </p><p>beneficiar do Tejo como contexto urbano. A maior parte das obras que se encontram nas cidades, </p><p>quase que parecem despejadas na rua, embaladas pelo rudos dos veculos, tendo como companhia </p><p>os reclames publicitrios, permanecendo imutveis perante os olhares desatentos das pessoas que </p><p>por elas passam, sem lhes darem a mnima ateno. </p><p>1.5.2. A Escultura ao servio da Justia, do Livro, das Cincias e do Comrcio 4 O Padro dos Descobrimentos. 5 Ver ficha de inventrio 435 e 438 6 Cf. Revista Municipal, n 91, p.40. Para imagem da cerimnia cf. Arquivo Fotogrfico de Lisboa, Prova A 35626. 7 Cf. Penny Balkim Boch, Defining the Public Context, New Land Marks: public art, community and the meaning of place, p.19. 8 Ficha de inventrio 439 9 Ficha de inventrio 440 10 Ficha de inventrio 441 </p></li><li><p> 175</p><p> Sobre o tema de como a escultura deve ser integrada na arquitectura, amplamente debatido </p><p>em captulos anteriores, o crtico Jos Lus Ferreira menciona a sugesto de que fosse aprovada </p><p>uma lei em que 5 a 10% do valor macio de uma construo, fosse para obras de arte11. Em 1966, </p><p>numa mesa-redonda que versa essencialmente sobre a colaborao entre artistas plsticos, o crtico </p><p>Mrio Pedrosa entende que no que diz respeito arte urbana, o escultor o artista plstico que </p><p>mais afinidades e facilidades ter em colaborar com o arquitecto12. Nesse sentido, ir ver-se de que </p><p>forma as obras de Leopoldo tero beneficiado, ou no, a arquitectura estatal que se ia erigindo pelo </p><p>pas. </p><p> O novo Palcio da Justia do Porto, projectado pelo arquitecto Raul Rodrigues Lima, foi </p><p>concebido como um monumento artstico, que deveria figurar nos roteiros da cidade do Porto13 e </p><p>talvez por isso integre uma pliade de artistas: Gustavo Bastos, Lagoa Henriques, Sousa Caldas, </p><p>Jlio Resende, Drdio Gomes, Irene Vilar, Henrique Moreira, Barata Feyo, Euclides Vaz e </p><p>Arlindo Rocha. </p><p>No sentido de monumentalizar o edifcio, o arquitecto projecta a execuo de uma esttua </p><p>em bronze com seis metros e meio, considerando que: </p><p>o trabalho deveria ser entregue a um artista estaturio de reconhecido mrito, visto tratar-se da principal obra de arte do edifcio14. </p><p> Nesse sentido, sugere o nome de Leopoldo de Almeida para realizar a figura </p><p>alegrica simbolizando a Justia, tendo como fundo o baixo-relevo em pedra </p><p>de Euclides Vaz. feita uma fotografia com as maquetes das duas obras, </p><p>esttua e baixo-relevo, que enviada ao arquitecto para apreciao. Ao querer </p><p>destacar a esttua do conjunto arquitectnico, usando para tal um material </p><p>diferente do relevo, Raul Lima considera que os dois artistas compreenderam </p><p>e corresponderam inteiramente a essa minha inteno15. </p><p> 11 Cf. Jos Luis Ferreira, A propsito da integrao das Artes na Arquitectura, Dirio de Lisboa, 5-11-1964, p. 24. 12 Cf. Arquitectura, n 92, Maro-Abril 1966, p. 51. 13 Cf. Antnio Manuel Nunes, Espaos e Imagens da Justia no Estado Novo, p. 198. 14 Cf. IHRU-DGEMN: DSARH-005-3491/01- Doc. 22, Carta de Raul Rodrigues Lima, 6-1-1956. 15 Cf. IHRU-DGEMN: DSARH-005-3491/01- Doc. 340, 13-11-1960. </p></li><li><p> 176</p><p>O esboceto que Leopoldo apresenta na fotografia no corresponde aos que se conhecem, sendo </p><p>uma verso ligeiramente diferente da que viria a ser escolhida16. </p><p> Em Agosto de 1960 a Junta Nacional de Educao d o seu parecer sobre a esttua, </p><p>entendendo que: </p><p> aproveita bem o espao onde dever figurar, e certamente com o acerto que habitualmente, se reconhece em todas as suas obras17. </p><p>Leopoldo concebe uma esttua alegrica da Justia18, sem venda </p><p>nos olhos, em contraponto com a representao mais </p><p>convencional. Situada entre o corpo do edifcio e a escadaria, esta </p><p>escultura monumental possui os atributos inerentes ao que </p><p>representa: a balana e a espada. So conhecidos 3 esbocetos19 </p><p>para esta obra, onde varia somente a pose dos braos da figura </p><p>alegrica hiertica. Na obra final a balana no est equilibrada, o </p><p>que no deixa de ser curioso, uma vez que nos estudos o artista </p><p>pondera essa hiptese. Tal como a venda nos olhos, tambm a balana equilibrada a forma mais </p><p>convencional de representar esta alegoria. Na concepo de Leopoldo, a Justia agarraria os dois </p><p>pratos da balana de uma forma displicente, como que querendo aproximar-se do humano, no </p><p>sentido em que nem sempre a balana pode estar equilibrada. Ser que desta forma o escultor </p><p>contesta o ideal associado forma alegrica, que apesar da sua pose hiertica segura de forma </p><p>natural e humana os atributos que lhe so inerentes? </p><p>Considera-seque esta pea retoma a imponncia das peas </p><p>concebidas anteriormente, Repblica e Soberania, estando mais </p><p>prxima desta ltima, no sentido em que as entendemos como obra de </p><p>vulto em si mesma e no enquanto escultura aliada ao corpo </p><p>arquitectnico, o que se verifica na figura da Repblica no </p><p>Monumento a Antnio Jos de Almeida. </p><p> 16 Cf. IHRU-DGEMN: DSARH-005-3491-Foto n 0339242. 17 Cf. IHRU-DGEMN: DSARH-005-3491/01, Doc. 69. 18 Para crtica e imagem integral da pea ver Ficha de Inventrio 444 19 Fichas de inventrio 442 e 443 </p></li><li><p> 177</p><p>Na obra que dedica Arte nos Tribunais, Antnio Manuel Nunes </p><p>tem a esttua de Leopoldo como um dos exemplos mais </p><p>significativos da poca e, talvez por assim o entender, a tenha </p><p>escolhido para ilustrar a capa. Tambm na imprensa escrita, so </p><p>utilizadas imagens da esttua, fotografada a partir de diferentes </p><p>ngulos, para ilustrar notcias cujo o tema so os tribunais e a </p><p>justia20. </p><p> Perante esta obra, os baixos-relevos que ir realizar para os restantes tribunais nacionais, </p><p>perdem imponncia. Para o Palcio da Justia de Santa Comba Do adopta o tema bblico ao </p><p>elaborar um painel que denomina de Moiss instaurando a ordem sobre o caos21, para a qual faz </p><p>desenhos, onde alguns pormenores acabariam por no ter lugar na obra final: os dois desenhos que </p><p>exibem duas figuras, uma ajoelhada e outra de p e dois estudos para a mesma figura ajoelhada, </p><p>concederiam maior dramatismo cena a representar22. </p><p> No que concerne ao Tribunal do Cartaxo, Leopoldo retoma o motivo da Famlia, o pai a </p><p>me e o filho, que desenhou e realizou inmeras vezes na dcada de 40 e 50, para agora compor </p><p>um painel onde mais do que o aspecto humano impera a religiosidade, sob o tema A Justia e a </p><p>Proteco Famlia23. A figura da Justia segura a balana tal como o exemplar do Porto, </p><p>colocando a espada numa pose muito semelhante, para aparecer agora como figura que paira e </p><p>protege a instituio familiar. </p><p>Tal como aconteceu para Santa Comba Do, o escultor volta a um tema bblico, A </p><p>Sentena de Salomo, para o Tribunal de Anadia24. A composio, denominada Justia de </p><p>Salomo, ser diferente das anteriores, uma vez que as figuras so tratadas isoladamente, </p><p>colocadas na fachada de uma forma que parece amovvel. O rei ocupa o lugar central, que na </p><p>qualidade de juiz supremo, decide que o beb ser entregue me verdadeira. At chegar </p><p> 20 Mencionaremos somente alguns exemplos em que a escultura usada como ilustrao, no seu todo ou em pormenor: cf. Cristiano Martins, A Torto e a Direito, Revista nica, Expresso, p.27 ; Capa do caderno Emprego do Expresso, 21-Maro-2008; Pblico, 6-4-2009, p. 8; Francisco Teixeira da Mota, O pblico e a liberdade de expresso nos tribunais, Pblico, 5-3-2010, p. 86. 21 O tema ter sido sugerido ao escultor pelo Ministro da Justia, ver ficha de invcntrio 448 22 Fichas de invcntrio 445 a 447 23 Ficha de invcntrio 449 24 Ficha de invcntrio 451 </p></li><li><p> 178</p><p>composio final, desde o desenho aos estudos em gesso25, o escultor experimenta uma soluo </p><p>diferente do baixo relevo tradicional. </p><p>A obra mais complexa e que retoma a </p><p>imponncia da Justia do Tribunal do Porto, seria a </p><p>que se destinava ao prtico do Tribunal da Pvoa </p><p>de Varzim, denominada O Direito Dominando a </p><p>Fora. inevitvel relacionar a concepo </p><p>adoptada com os grupos escultricos que Leopoldo </p><p>viu em Paris26 e em Roma27, recriando-os nesta </p><p>composio, onde um homem domina dois cavalos, </p><p>atormentados por duas serpentes. A obra no seria colocada no local para onde foi criada, ficando </p><p>armazenada at aos anos 80, acabando por ser colocada nos jardins dos Tribunais Cveis de </p><p>Lisboa28. </p><p>Para o 11 Juzo Cvel do Tribunal de Lisboa29, seria entregue um tema a Leopoldo, Todo </p><p>o julgador ver e examinar com boa diligncia todo o processo, para decorar uma das paredes da </p><p>sala de audincias30. conhecido um estudo que, comparado com a obra final, adopta a mesma </p><p>composio. Mas um aspecto muito curioso do desenho, </p><p>a colocao de parte da figura humana, para uma noo de </p><p>escala, enquadramento e perspectiva. Como se ir ver, este </p><p>no vai ser o nico desenho em que o escultor retrata a </p><p>figura humana em relao com a escultura31. Tem de </p><p>salientar-se que o escultor faz sempre mais do que uma </p><p>proposta, mesmo que paream muito semelhantes existe </p><p> 25 Fichas de invcntrio 450 e 451 26 Fichas de invcntrio 32 a 35 27 Ficha de inventrio 42 28 Para a histria atribulada da pea ver as fichas de inventrio 452 e 453 29 Onde participaram uma srie de artistas destacando-se os escultores: Euclides Vaz, Lagoa Henriques, Antnio Duarte, Antnio Paiva, Carlos Amado, Soares Branco, Eduardo Srgio, Gustavo Bastos, Joo Charters d Almeida, Joo Cutileiro, Joaquim Correia, Martins Correia, Jorge Barradas, Maria Manuela Madureira, Querubim Lapa, Barata Feyo, Valadas Coriel, Virglio Domingues e Fernando Fernandes. Cf. Antnio Manuel Nunes, Espaos e Imagens da Justia no Estado Novo, p.420-422. 30 Ficha de inventrio 455 31 Ficha de inventrio 486 e 491. Nestes dois desenhos o escultor parece auto-retratar-se. </p></li><li><p> 179</p><p>sempre um pormenor que as distingue, que neste caso a posio da figura da direita, que no </p><p>gesso estava de perfil para o espectador e que no bronze fica de costas32. </p><p>Ainda no que concerne ao relevo, Leopoldo modela 12 personagens ligadas histria do </p><p>livro, para decorarem o prtico de entrada da Biblioteca Nacional. O arquitecto Raul Lino, na </p><p>apreciao que faz das maquetas, refere que o escultor resolveu bem a forma como as figuras </p><p>foram distribudas pelas faixas estreitas e alongadas33. Leopoldo representa todas as figuras de </p><p>uma forma iconogrfica reconhecvel34, no podendo deixar de se associar a figurao do Marqus </p><p>de Pombal com o exemplar de Francisco dos Santos, obra de vulto para o Monumento da Rotunda </p><p>dedicado ao estadista, em que Leopoldo participou na dcada de 30. </p><p>A distribuio das personalidades ligadas ao livro e erudio, por 2 painis em relevo, o </p><p>elemento que enriquece a arquitectura depurada do edifcio35: </p><p>O prtico de entrada do edifcio , por si s, uma pea arquitectnica de grande valor pois integra lateralmente dois belssimos baixos-relevos criados pelo escultor Leopoldo de Almeida, executados em granito rosa da Malveira36 </p><p>Foi das raras vezes em que assistiu a algum escrever de forma to clara que uma pea de </p><p>arquitectura pode ser enriquecida por uma obra de escultura, o que no opinio unnime37. </p><p> No que se refere a obra de vulto destinada a decorar a arquitectura de uma forma </p><p>identificadora, tal como aconteceu com a Justia, Leopoldo concebe outro grupo escultrico para </p><p>a Cidade Universitria de Coimbra, desta feita alusivo s Cncias. Contrariamente ao que havia </p><p>acontecido com o grupo que </p><p>realizou na dcada anterior para a </p><p>mesma Universidade, o escultor faz </p><p>somente uma verso, que seria </p><p>muito semelhante obra realizada, </p><p>onde a figura da Cincia domina a </p><p> 32 Ficha de inventrio 454 33 Cf. IHRU-DGE...</p></li></ul>