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A hermenêutica ¿losó¿ca de Paul Ricoeurconheceu sua primeira elaboração no segundotomo de sua Philosophie de la volonté: Lasymbolique du mal. Já nesta etapa o ¿lósofofrancês oferece uma grande contribuição àhermenêutica bíblica, uma vez que analisa ossímbolos e o mito através dos quais o mal éconfessado e narrado. A segunda elaboraçãoda hermenêutica de Ricoeur é centrada notexto. Para isso, ele aprofunda a tradição hermenêuticaanterior, além de estabelecer umdiálogo fecundo com os estruturalistas e os¿lósofos da linguistic turn. As teorias da metáforae da narração fazem parte desta novahermenêutica, que não aborda os signos dacultura por eles mesmos, mas tendo em vistauma hermenêutica da ação de um sujeito (si)capaz. Este texto apresenta uma breve síntesedos principais elementos da hermenêuticaricoeuriana dos textos, indicando, num segundomomento, seus desdobramentos na exegese bíblica.

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  • Hermenuca losca

    e hermenuca bblica

    em Paul Ricoeur

    Geraldo De Mori*

    Resumo

    A hermenutica losca de Paul Ricoeur conheceu sua primeira elaborao no segun-do tomo de sua Philosophie de la volont: La symbolique du mal. J nesta etapa o lsofo francs oferece uma grande contribuio hermenutica bblica, uma vez que analisa os smbolos e o mito atravs dos quais o mal confessado e narrado. A segunda elaborao da hermenutica de Ricoeur centrada no texto. Para isso, ele aprofunda a tradio her-menutica anterior, alm de estabelecer um dilogo fecundo com os estruturalistas e os lsofos da linguistic turn. As teorias da me-tfora e da narrao fazem parte desta nova hermenutica, que no aborda os signos da cultura por eles mesmos, mas tendo em vista uma hermenutica da ao de um sujeito (si) capaz. Este texto apresenta uma breve snte-se dos principais elementos da hermenutica ricoeuriana dos textos, indicando, num segun-do momento, seus desdobramentos na exe-gese bblica.

    Palavras-chave: Paul Ricoeur, her-menutica losca, hermenutica bbli-ca, teoria da metfora, teoria da narrao, hermenutica dos textos.

    g pelas Facults Jsuites de Paris - Centre

    Svres -, professor de antropologia teolgica e escatologia crist na Faculdade Jesuta de Filosoa e

    Teologia - FAJE -, Belo Horizonte, Brasil, onde o Diretor do

    Departamento de Teologia e o Coordenador do Programa de Ps-

    Graduao. Publicou: A teologia em situao de ps-modernidade.

    So Leopoldo: Unisinos, 2005; Le temps. nigme des hommes,

    mystre de Dieu. Paris: Cerf, 2006. Organizou com outros

    autores as seguintes publicaes: Teologia e Cincias da Religio. Rumo maioridade acadmica

    no Brasil. So Paulo: Paulinas, 2011 (com CRUZ, E.); Religio e educao para a cidadania. So

    Paulo: Paulinas, 2011; Aragem do Sagrado. Deus na literatura brasileira contempornea. So

    Paulo: Loyola, 2011; Mobilidade Religiosa. Linguagens, Juventude,

    Polca. So Paulo: Paulinas, 2012.

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    Abstract

    The philosophical hermeneutics of Paul Ricoeur met his rst drafting in the second tome of his Philosophie de la volont: La symbolique du mal. Already at this stage of the French philosopher offers a large contribution to biblical herme-neutics, since it analyzes the myth and symbols through which evil is confessed and narrated. The second development is the hermeneutics of Ricoeur centered iin the text. For this, he deepens the earlier hermeneutic tradition, in addition to establishing a fruitful dialogue with the structuralists and philosophers of the linguistic turn. The theories of metaphor and narrative are part of this new her-meneutic that does not address the signs of culture by themselves, but in view of a hermeneutics of action of a subject (self) . This paper presents a brief summa-ry of the main elements of hermeneutics ricoeuriana texts, indicating a second time, its developments in biblical exegesis.

    Keywords: Paul Ricoeur, philosophical hermeneutics, biblical hermeneu-tics, the theory of metaphor, narrative theory, hermeneutics of texts.

    Introduo

    A reexo losca de Paul Ricoeur de grande diversidade e complexidade, resistindo a qualquer sistematizao que a rena ao redor de uma nica perspectiva. Com efeito sua hermenu-

    tica dos smbolos, do texto e da ao, sua teoria da metfora e da nar-

    rao, sua reexo sobre o tempo, a histria, a identidade, a memria

    e o esquecimento, suas pesquisas sobre a vontade, o mal, a tica, o si

    ou, ainda, suas contribuies exegese bblica, no traduzem individu-

    almente a obra variada do lsofo francs1. Por isso, no pretendemos

    neste texto oferecer nenhuma chave de leitura do conjunto desta obra,

    nem tampouco apresentar a especicidade de seu aporte literatura ou

    teologia. Contentar-nos-emos em propor uma breve leitura do percurso

    ricoeuriano, recolhendo alguns traos de sua teoria hermenutica da

    hermenutica dos smbolos hermenutica do texto, passando pelas

    teorias da metfora e da narrao apontando, num segundo momento,

    1. Para uma introduo ao conjunto do pensamento de Ricoeur, cf. DOSSE, F. Paul Ricoeur. Le sens dune vie. Paris: La Dcouverte, 1997; GREISCH, J. Paul Ricoeur. Litinrance du sens. Grenoble: Millon, 2011.

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    alguns desdobramentos teolgicos dessa teoria.

    1. Da hermenutica dos smbolos hermenutica dos textos2

    A teoria hermenutica de Ricoeur conheceu duas grandes elabora-

    es, a da hermenutica dos smbolos e a da hermenutica dos textos,

    ambas relacionadas com sua hermenutica da ao. Pensador das me-

    diaes, que passam em geral pelos grandes signos da cultura, como os

    smbolos, os mitos e os textos, o lsofo francs produziu uma reexo

    em constante dilogo com as principais tendncias loscas do sc.

    XX.

    Sua obra inaugural Philosophie de la volont prevista para des-

    dobrar-se num trptico, tendo como primeiro quadro, a eidtica da vonta-

    de, constituda por Le volontaire et linvolontaire; como segundo quadro,

    a emprica da vontade, formada pelos dois volumes de Finitude et culpa-

    bilit: Lhomme faillible e La symbolique du mal; e como terceiro quadro,

    a potica da vontade, que nunca chegou a se formular numa obra espe-

    cca , tem como preocupao de fundo a questo do sujeito (ou do si)

    capaz de um agir que ultrapasse a falha que a partir dele introduz o mal

    no mundo3. De uma leitura fenomenolgica, que estuda as estruturas do

    voluntrio e do involuntrio, Ricoeur passa a uma leitura hermenutica,

    que estuda os smbolos e os mitos que confessam e narram o mal.

    Constitui-se assim sua hermenutica dos smbolos, que se estrutura em

    trs grandes momentos: 1) o da anlise dos smbolos originrios (man-

    cha, pecado e culpabilidade), a partir dos quais a falha que introduz o

    mal no mundo confessada; 2) o da anlise dos mitos que buscam en-

    tender a irrupo do mal na histria (os mitos babilnico, trgico, rco

    2. Esta primeira parte retoma estudo semelhante publicado na revista Teoliterria, 2012, n. 3, embora ento buscssemos mostrar a contribuio da hermenutica de Ricoeur na leitura de textos

    literrios, ilustrando nosso estudo com alguns aspectos da obra de Joo Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro.3. Cf. RICOEUR, P. Philosophie de la volont I. Le volontaire et linvolontaire. Paris: Montaigne, 1949; Philosophie de la volont II. T. 1. Finitude et culpabilit. Lhomme faillible. Paris: Montaigne, 1960; Philosophie de la volont II. T. 2. Finitude et culpabilit. La symbolique du mal. Paris: Aubier, 1960.

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    e admico) ou que apontam para sua supresso (mitos escatolgicos

    de redeno e salvao); 3) o da anlise da passagem da simblica

    reexo (gnose, doutrina do pecado original e suas releituras pela tradi-

    o losca no Ocidente). O perodo que se segue levar Ricoeur ao

    estudo de Freud e ao encontro com a crtica do estruturalismo. Ele d-

    se ento conta do conito de interpretaes que ope as perspectivas

    teleolgicas s leituras arqueolgicas4. Face a esse conito, ele prope

    pensar mais e de outra forma, buscando as mediaes que contribu-

    am para uma melhor compreenso do ser humano em sua condio

    histrica5.

    A passagem da fenomenologia hermenutica leva Ricoeur a re-

    ler os principais expoentes da losoa hermenutica, que o conduzir

    hermenutica dos textos. Crtico de Schleiermacher cuja hermenutica

    busca a inteno do autor por detrs do texto , de Dilthey que ope

    compreenso e explicao , de Gadamer que reitera esta oposio

    na dialtica verdade e mtodo , e de Heidegger que segue o ca-

    minho curto em sua hermenutica da facticidade , o lsofo francs

    estabelece os elementos de sua teoria do texto e da ao Do texto

    ao , na qual a noo de distanciao jogar um papel decisivo6.

    Nesse perodo ele escreveu tambm a obra que explora o fenmeno da

    inovao semntica A metfora viva , concebida junto com sua teoria

    da narratividade e da temporalidade Tempo e narrativa 1, 2, 3 , que o

    levar a aprofundar o tema da identidade em relao com a tica O si

    mesmo como um outro 7. Vejamos os principais elementos dessa etapa

    4. Cf. RICOEUR, P. De linterprtation: essai sur Freud. Paris: Seuil, 1965 ; Le conit des inter-prtations. Essais dhermneutique. Paris: Seuil, 1969.5. Ricoeur pensa particularmente na psicanlise (voltada para a arqueologia) e a na fenomenologia

    hegeliana (voltada para a teleologia), embora denomine mestres da suspeita a Freud, Nietzsche

    e Marx.

    6. Cf. RICOEUR, P. Du texte laction. Essais dhermneutique II. Paris: Seuil, 1986. Trad. Portuguesa. Do texto aco. Ensaios de hermenutica II. Porto : Rs, 1989.7. Cf. RICOEUR, P. La mtaphore vive. Paris: Seuil, 1975; Temps et rcit I. Lintrigue et le rcit historique. Paris: Seuil, 1983; Temps et rcit II. La conguration dans le rcit de ction. Paris: Seuil, 1984; Temps et rcit 3. Le temps racont. Paris: Seuil, 1985; Soi-mme comme un autre. Paris: Seuil, 1990.

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    da hermenutica dos textos de Ricoeur.

    a. A funo hermenutica da distanciao: a teoria do texto

    A noo de distanciao joga um papel importante na teoria do texto

    de Ricoeur. Ele organiza sua compreenso de texto em cinco momentos:

    1) a efetivao da linguagem como discurso; 2) a realizao do discurso

    como obra estruturada; 3) a relao entre fala e escrita no discurso e nas

    obras de discurso; 4) a projeo do mundo do texto; 5) o discurso e a

    obra de discurso como mediao para a compreenso de si8