16 VALSAS PARA FAGOTE SOLO DE FRANCISCO MIGNONE

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  • ANPPOM Dcimo Quinto Congresso/2005 310

    UM DISCURSO SOBRE EDIO E INTERPRETAO DAS "16 VALSAS PARA FAGOTE SOLO DE FRANCISCO MIGNONE"

    Elione Alves de Medeiros Elione.medeiros@terra.com.br

    Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO

    Resumo

    O objetivo deste trabalho buscar reflexes sobre as inquietaes que emergiram da

    Dissertao de Mestrado (1995), que tem como ttulo "As 16 Valsas para fagote solo de

    Francisco Mignone, uma abordagem tcnica e interpretativa".

    O trabalho versa sobre a supresso de traos interpretativos e rtmicos, identificados

    na publicao da Funarte, que foi editada a partir do autgrafo do compositor Francisco

    Mignone. Buscou-se discutir os valores de uma edio que considerasse mais a atmosfera

    musical do compositor. Entendendo-se que dessa forma, o executante teria mais dados que

    possibilitassem uma interpretao mais prxima s idias musicais do autor, e por isso,

    trazer a sugesto de uma nova edio dessa obra brasileira, que se tornou internacional-

    mente importante para a literatura do fagote.

    Palavras-chave: Fagote; Valsas solo; Francisco Mignone; Prticas interpretativas.

    Abstract

    This study aims to research new thoughts that emerged from the Masters dissertation

    from the (1995) As 16 valsas para fagote solo de Francisco Mignone, uma abordagem

    tcnica e interpretativa (The 16 solo basson waltz of Francisco Mignone, a technical and

    interpretative landscape).

    The work speaks about the suppression of interpretative and rhythmic traces, identifi-

    ed from the Funarte edition edited from the Mignones autograph. Is discussed the valu-

    es for a better edition of theses works with focus on the composers meanings. On that way,

    is possible for the interpreter have an edition that permits to be closer to the composers

    thoughts of that important Brazilian work of that became part of the international bassoon

    repertoire.

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    Francisco Mignone e as Valsas para fagote solo

    Quando jovem Mignone usava o pseudnimo de Chico Boror para escrever peas

    populares e seresteiras, pois havia discriminao sobre essas composies por parte dos

    eruditos daquela poca (Ikeda; 1986). As valsas compostas por Francisco Mignone trazem

    fortes caractersticas desses traos seresteiros dos tempos em que ele prprio participava de

    grupos musicais do gnero nas esquinas de alguma rua da cidade de So Paulo, executando

    com sua flauta, chorinhos e valsas. (Kiefer, 1983).

    As Valsas para fagote solo surgiram a pedidos da professora Irany Leme, que havia

    programado a srie Em Tempo de Valsa (1979), com seis recitais especficos do gnero

    Valsa. O fagotista e professor Nol Devos1 foi convidado entre outros intrpretes a partici-

    par do recital. Contudo, Devos transmitiu suas dificuldades nessa participao, pois no

    havia encontrado na literatura internacional para fagote, nada do gnero. Imediatamente, a

    pianista Irany Leme foi at Francisco Mignone e fez um apelo Mignone tinha composi-

    es de valsas para piano programadas para esse evento e ele se disps a escrever algu-

    mas valsas para fagote solo, assim possibilitando a presena do fagotista nesse recital (Le-

    me, declarao pessoal, 1994). Dessa forma surgiram as valsas: Valsa-choro e Macuna-

    ma, essa, em homenagem a Mrio de Andrade, seu principal amigo e incentivador (Mig-

    none, 1991). Estimulado por Devos e pelas valsas para fagote executadas, o compositor

    iniciou mais um ciclo de composies, escrevendo ento as 16 Valsas para fagote solo.

    Ponderando sobre a edio Funarte das 16 Valsas para fagote solo de Francisco

    Mignone

    Observando-se o autgrafo das 16 Valsas para fagote solo de Francisco Mignone,

    que se encontra na Seo de Msica da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, percebe-se

    claramente a existncia de supresso de dados relevantes, em relao edio da Funarte

    de 1983, que serviu de comparao. Logo, resolveu-se fazer uma anlise comparativa dos

    dois documentos, ou seja, o autgrafo e a edio publicada da Funarte, que foi realizada a

    1 Nol Devos (1929): fagotista de origem francesa e naturalizado brasileiro, chegou ao Rio de Janeiro na dcada de 50 para ser o primeiro fagote solo da Orquestra Sinfnica Brasileira (OSB). Foi professor da Uni-versidade Federal do Rio de Janeiros ( UFRJ), aposentado, leciona na Escola de Msica Villa-Lobos. Nol Devos com sua grande musicalidade e tcnica incentivou grandes compositores nacionais a escreverem obras para o fagote. Entre eles podemos citar: Mignone, Guerra-Peixe, Nelson de Macedo, Alceo Bochino, Osvaldo Lacerda, entre outros.

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    partir desse autgrafo. Esse material est devidamente catalogado e disposio do pes-

    quisador (Higino, declarao pessoal, 2005).

    Numa minuciosa pesquisa comparativa usando-se os dois documentos citados, pde-

    se perceber na edio da Funarte a ausncia de dados muito importantes, que sobremanei-

    ra, facilitariam uma melhor compreenso interpretativa desse conjunto de composies de

    valsas para fagote solo. O primeiro aspecto digno de nota a supresso de todas as indica-

    es em francs que o compositor fez referncia no autgrafo, e que na edio da Funarte

    foi totalmente abolida, mesmo em portugus. Essas notaes dizem respeito aos pontos de

    vista interpretativos. Elas foram escritas em francs porque as valsas foram compostas para

    o fagotista e professor, Noel Devos, que de origem francesa.

    Foi possvel encontrar diversas anotaes desse tipo, como por exemplo: Na Sexta

    Valsa Brasileira" comp. 64: Trs agile comme une Flte ou na Valsa A boa pscoa para

    voc Devos! no compasso 34 temos fretenez . No comp. 40 da Valsa A escrava que no

    era Isaura, temos: largissant em peu. Essas notaes orgnicas e evocativas, que tratam

    da flexibilidade na execuo de determinados trechos musicais, so vitais para um bom

    entendimento do semblante da obra a ser interpretada e da idia musical do autor. As val-

    sas para fagote solo de Francisco Mignone esto na sua maioria com essas indicaes em

    francs no autgrafo. Aqui, foram colocados apenas alguns exemplos, porque se apresenta-

    ria muito extenso a exemplificao de todos os termos em francs.

    Apenas para ilustrao ver os exemplos das figuras 1, 2, e 3).

    Fig. 1 compasso 64 da Sexta Valsa brasileira.

    Fig. 2 compasso 34 da Boa Pscoa para voc Devos!.

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    Fig. 3 compasso 40 da Escrava que no era Isaura.

    Pela entrevista pessoal buscou-se saber quais as razes dessa ausncia de dados na e-

    dio da Funarte, assim, em comunicao pessoal com o professor Nol Devos (2005),

    Devos declarou que Mignone teve em mos a boneca2 da edio. Examinando-a notou as

    ausncias das indicaes em francs e logo se mostrou insatisfeito. Os responsveis pela

    edio das valsas para fagote solo pela Funarte, mantiveram o que estava impresso no pro-

    jeto grfico e prometeram mudanas na segunda edio. Fato no acontecido. As razes

    foram buscadas, mas sem sucesso, haja vista a dificuldade de identificar hoje os funcion-

    rios da Funarte responsveis pela edio de 1983 das referidas valsas.

    O mais preocupante que outras edies desse conjunto de obras esto sendo publica-

    das, mantendo como base a edio da Funarte. Tm-se como exemplo uma edio da BME

    (Brasilian Music Interprise, que foi encomendada para o concurso Gillet3 patrocinado pela

    (International Double Reed Society) em 1998. Isso tem acontecido pelo fato da importn-

    cia desse conjunto de composies. Essas obras tm sido executadas e gravadas na Europa

    e EUA, tem sido pea de confronto em concursos para jovens solistas e para vagas de fago-

    te nas orquestras, alm disso, so aplicadas em classes avanadas de estudantes de fagote

    no Brasil e no exterior. Apesar das belas performances assistidas ao vivo e ouvidas por

    intermdio de CD de udio, permanece a inquietao de que se as edies respeitassem as

    idias musicais do autor, quantos dados adicionais poderiam enriquecer a interpretao

    dessas obras. Nota-se em algumas gravaes a presena da tradio oral, esta extrada da

    primeira gravao feita pelo fagotista Nol Devos, que teve a possibilidade de obter as

    idias musicais do compositor nessa obra.

    2 Boneca: Projeto grfico de jornal, revista, livro ou qualquer outro trabalho grfico de mais de duas pginas destinado a ser impresso; Dicionrio Michaelis em Portugus. 3 Concurso Gillet : in memorian ao oboista francs e membro honorrio da I.D.R.S, Ferdinand Gillet.

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    Alm dessas notaes ausentes na edio Funarte, em relao ao autografo, a edio

    da Funarte apresenta ainda outros pontos que trazem dvidas, cuja causa poderia ter sido

    provocada por questes tcnicas de impresso da mquina, fonte, tipologia, ou ainda, pela

    inobservncia dos editores.

    A maioria das figuras que simbolizam as apoggiaturi encontra-se deslocada, isto ,

    em vez de localizada antes da barra de compasso ligada imediatamente a nota do compasso

    seguinte, como se apresenta no autgrafo, a apoggiatura encontra-se no primeiro tempo

    do compasso seguinte, imediatamente ligada a outra figura ou nota. Esse fato contribui sem

    a menor dvida para uma execuo onde se permuta o tempo fraco para o tempo forte, isto

    pode no transmitir da melhor forma as intenes musicais do compositor, pois ao executar

    essas figuras de ornamento, o intrprete vai colocar mais nfase ou importncia no tempo

    forte. Quando se define esses dados pela escrita, o intrprete pode ter mais liberdade de

    escolha. Podem-se observar no autgrafo do compositor algumas apoggiaturi iniciando-se

    no tempo forte e outras na sua maioria no tempo fraco. Na edio da Funarte esses traos

    tm um comportamento padro, ou seja, todas, sem exceo, iniciam-se no tempo forte do

    compasso, esvaziando assim, um pouco das possibilidades de nuances interpretativas para

    o intrprete.

    Para melhor compreenso do texto inserimos aqui alguns exemplos esclarecedores.

    Observe as figuras 4 e 5 a seguir:

    Fig. 4 os 5 compassos iniciais da Valsa Dolorosa Na edio Funarte.

    Fig. 5 os 5 compassos inicias da Valsa Dolorosa no Autgrafo.

    necessrio frisar, que essas observaes so comuns, e encontradas em grande parte

    das Valsas para fagote solo de Francisco Mignone da Edio Funarte. Outras pequenas

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    propriedades observadas no autgrafo, e diferentes na Edio Funarte dizem respeito s

    figuras rtmicas. Pode-se observar no compasso 73 da Valsa solo para fagote "Mistrio",

    que apesar de Mignone em seu manuscrito no deixar claro uma ligadura entre as 7 col-

    cheias que preenchem o compasso, ele deixou bem visvel o nmero sete acima do com-

    passo entre as notas e a ligadura. O compasso apresenta 4 colcheias e 3 colcheias em forma

    de quiltera. Para chegar a essa concluso rtmica, foi levado em considerao algumas

    informaes sobre o compositor, por intermdio de seu principal intrprete e alvo de suas

    composies para fagote, ( Devos, 2005). O movimento meldico que se d nesse compas-

    so pertence a uma cadncia, e lembra muito as improvisaes do violo seresteiro, quando

    acompanha um choro ou uma msica do gnero, que se caracteriza entre outras coisas pelo

    sentimento e pela aggica4. Ver como exemplos, as figuras 6 e 7. mister ressaltar, que foi

    dada importncia do fato em si, e no no contexto da obra, por isso mesmo, os exemplos

    aparecem somente naquele ponto pertinente.

    Fig. 6 compasso 73 como se apresenta na Ed. Funarte.

    .

    Fig. 7 compasso 73 como se apresenta no autgrafo

    Uma edio que busca valorizar a idia sonora do compositor, guardando todos os tra-

    os possveis do autgrafo, naturalmente enriquece a interpretao. Um primeiro julga-

    mento sobre a edio da Funarte das 16 Valsas para fagote solo sugeriu que se trata de

    uma Edio Prtica, onde em vez de trazer consigo a inteno sonora do compositor, traz a

    do editor como nos informa Figueiredo:

    A Edio Prtica, tambm chamada didtica, destinada exclusivamente a executantes, sendo baseada em uma nica fonte (...) com a utilizao de critrios eclticos para atingir seu texto. Um dos problemas comuns com tal tipo de edio a manuteno de uma srie de erros, j que os editores tm a tendncia de usar edi-es anteriores para seu trabalho de reviso (Figueiredo, 2004)

    4 Aggica aggica s vezes usado para designar qualquer tipo de desvio em relao ao rigor rtmico Dic. Grove de Msica; Edio concisa; p. 12

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    Embora o documento usado pela Funarte tenha sido o autgrafo, as evidncias levam

    a crer numa edio sem maiores compromissos com a viso musical do autor nessas peas.

    No prefcio da Edio Funarte das 16 Valsas para fagote solo de Francisco Mignone tm

    pequenos textos com sugestes interpretativas escritas pelo professor Nol Devos, para a

    execuo dessas valsas, ele termina seu texto assim: Este esforo de divulgao didtica

    da Funarte ter certamente boa aceitao e repercusso junto aos msicos e melmanos

    (Devos; 1982). Isso refora nosso julgamento de que se trata de uma Edio Prtica. As-

    sim, fica aqui nossa sugesto de uma nova edio, a partir do autgrafo, que seja mais

    completa no que tange a idia musical de Mignone, aumentando as possibilidades de com-

    preenso da atmosfera musical do compositor, dessa forma contribuindo para o entendi-

    mento interpretativo. Assim, sugere-se uma edio crtica da obra, que assim constar de

    todas as informaes que o autor inseriu no autgrafo alm de outras fontes pertinentes,

    incluindo a tradio oral (Feder, 1992).

    Referncias bibliogrficas

    ANDRADE, Mrio de. Aspectos da msica brasileira, 2 ed. So Paulo: Martins, Braslia: INL, 1975. 247 p.

    AZEVEDO, Luis Heitor Correa de. 150 anos de msica no Brasil (1800-1950), Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1956.

    Bibliografia consultada

    FEDER, Georg. Filologia Musicale: Introduzione alla critica del testo, allermeneutica e alle tecniche dedizione. Traduzione di Giovanni di Stefano. Revisione: Lorenzo Bianconi. Bologna: Societ Editrice Il Molino, 1992.

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    GRIER, James. The critical editing of music: history, method and practice. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

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    KIEFER, Bruno. Mignone - vida e obra. Porto Alegre: Movimento, 1983.

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    ______. Em tempo de valsa, Rio de Janeiro, 1979, Uni-Rio/Funarte.

    MIGNONE, Francisco. 16 Valsas para fagote solo, Rio de Janeiro, Funarte/INM/Pr-Memus, 1983, 35 p.

    ______. Depoimentos; Rio de Janeiro, Museu da Imagem e do Som, mar. 1991.

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