15ª Edição - O Espectro

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<ul><li><p> 15 Edio - 10 Novembro 2014 Ncleo de Cincia Poltica ISCSP - UL </p><p>25 Aniversrio da Queda do Muro de Berlim </p><p>O movimento democrtico em Hong Kong </p><p>pg8 </p><p>pg7 </p><p>As foras polticas hong kongers </p><p>agrupam-se em duas alianas, </p><p>ou seja, conforme a sua lealdade </p><p>penda mais a favor do regime </p><p>chins ou da autonomia e </p><p>democracia na regio. </p><p>Entre ns, cem muros </p><p>A Eutansia (opinio) pg5 pg3 </p></li><li><p>POLTICA INTERNA </p><p>02 | O ESPECTRO 10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>O (des)investimento </p><p>na Educao </p><p>Isa Rafael </p><p>Aps a apresentao do Oramento de Es-tado de 2015, verifica-ram-se novos cortes e redues dos encar-gos do Estado ao nvel da despesa pblica. No entanto, a maioria dessas redues na despesa so referen-tes a sectores que in-cidem maioritaria-mente sobre a verten-te social do pas que tem sido, ano aps ano, negligenciada, nomeadamente, a vertente da educao. Segundo a proposta oramental, as despe-sas com o ensino bsi-co e secundrio sofre-ro uma diminuio de 704 milhes de eu-ros. Como do conheci-mento geral da popu-lao (ou deveria ser), a educao est, cada vez mais, num estado precrio e deficitrio, em boa parte devido </p><p>ao mau funciona-mento e m gesto por parte do Minist-rio da Educao. Co-mo se isto no bas-tasse, so ainda reti-rados uns bons mi-lhes que, embora no potenciassem mais para alm do previsvel (sub)desenvolvimento da educao at agora, sero sem dvida, necessitados no futu-ro, impossibilitando uma melhoria do sis-tema educativo. No entanto, Nuno Crato garante que o Governo est a investir bem na educao, afirmando que o oramento es-tipulado para o seu Ministrio adequado. O que, no fim de contas, se verifica que o Mi-nistro da Educao no aparenta ter quaisquer preocupa-</p><p>es com a comuni-dade educativa mas sim, com as metas e objectivos estatsti-cos definidos para cada ano que tm de cumprir, pois acredi-to que quem capaz de afirmar que aps um corte de 700 mi-lhes tudo continua com a mesma poten-cialidade para inves-tir em algo, mais con-cretamente na edu-cao, deve ser um leigo. Ora vejamos: As es-truturas escolares continuam a deterio-rar-se por no haver um financiamento efectivo; a colocao de professores foi o descalabro; no exis-tem quaisquer incen-tivos aos docentes, </p><p>antes pelo contrrio, ainda lhes retirado parte do seu salrio, assim como foram congeladas, por tem-po indeterminado, as progresses de carrei-ra. Para alm do mais, continua a existir a precariedade no ensi-no, que no erradi-cada, assim como um agravamento no aces-so aos recursos. Alia-dos a todos estes, e tantos outros proble-mas, a crise no con-tribui para a melhoria do sistema educativo. A questo que se colo-ca : onde que se encontra, e onde que vai entrar, o in-vestimento na educa-o, que o Sr. Nuno Crato fala? </p><p>Nuno Crato, Ministro da Educao </p></li><li><p>10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>O ESPECTRO | 03 </p><p>OPINIO </p><p>A Eutansia </p><p>Joo Ferreira </p><p> til saber que o ter-mo eutansia signi-fica literalmente morte boa ou morte feliz. verda-de que os casos reais envolvem dor e an-gstia, no entanto a morte que dela resul-ta para benefcio do paciente. Podemos ento dizer, que a eu-tansia consiste em produzir, ou acelerar, intencionalmente a morte de algum para seu benefcio. Produ-zir, neste caso, implica matar; acelerar impli-ca deixar morrer. No entanto, o proble-ma tico da eutansia no se esgota numa pergunta s. Ser per-missvel que as pesso-as, especialmente aquelas que se encon-tram numa fase termi-nal da vida e em sofri-mento agudo, deter-minem o fim das suas vidas? Se sim, per-missvel que solicitem medidas imediatas </p><p>que as matem? Ou ser considerado per-missvel que apenas solicitem que as dei-xem morrer, pedindo aos mdicos que se abstenham de as tra-tar? H quem procu-re a diferena moral entre matar e deixar morrer, na tica por detrs do uso da eu-tansia. Essa diferen-a parece confirmar-se nas nossas institui-es morais e na pr-tica legal. Vejamos este exemplo: Al-gum empurra uma criana a um rio para que ela morra afoga-da. Uma outra pes-soa v o que aconte-ce, mas no salta pa-ra o rio, ainda que pudesse faz-lo, sal-vando assim a crian-a. A pessoa que em-purra mata, e isso parece bem mais gra-ve do que simples-mente deixar morrer, no saltando para o rio. essa a nossa </p><p>intuio moral, que neste caso est de acordo com a prtica legal. Podemos con-cluir ento que a eu-tansia passiva dei-xar morrer- est mo-ralmente justificada, mas no a eutansia activa (matar)? H quem afirme que o debate acerca da dis-tino entre o ato de matar e o de deixar morrer termine num impasse. E h ainda quem v mais longe e afirme que a tica sobre o uso de euta-nsia no caiba em princpios gerais, co-mo o da simetria mo-ral ou o da diferena moral. Porm, a au-tonomia um ele-mento decisivo do bem-estar. Matar ou deixar mor-rer, contra a vontade das pessoas, at po-de gerar o benefcio de minimizar o sofri-mento, mas sem au-tonomia, esse benef-cio insuficiente pa-ra gerar bem-estar. Ningum melhor que o prprio para saber quais so as suas as-piraes, vulnerabili-</p><p>dades, gostos, entre outras variantes, in-cluindo decidir quan-do por termo sua vida. No parece ha-ver qualquer sombra de dvida de que cada um o melhor guar-dio do seu prprio bem-estar. E no ter controlo sobre a pr-pria vida, mas ser o agente que o detm, uma fonte de prazer. Sem esse prazer o bem de cada um no concebvel. Concluo que, mesmo que ainda existam di-ferenas de opinies, no possa haver uma soluo para que am-bos os lados cheguem a um consentimento unnime, mas por ou-tro lado, todos os pro-gressos da medicina paliativa do uma res-posta cada vez mais eficaz ao desejo de aliviar o sofrimento. Ainda que no seja a soluo que concilia o lado contra e o lado a favor, representa um progresso em direc-o a um consenso parcial. </p></li><li><p>04 | O ESPECTRO 10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>EM DESTAQUE </p><p>Vladimir Putin a discursar na Cpula da APEC (Organizao de Cooperao Econmica sia-</p><p>Pacfico) nesta segunda feira RIA Novosti/Mihail Klimentjev </p><p>publicidade </p><p>Para mais informaes: https://www.facebook .com/ISCSP.ULISBOA </p></li><li><p>POLTICA EXTERNA </p><p>10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>O ESPECTRO | 05 </p><p>Entre ns, cem </p><p>muros </p><p>Tiago Santos </p><p>Entre ns, cem muros Cem guerras, um capataz Entre ns, sem muros Para que possamos viver em paz! Entre ns cem muros se ergueram num pas-sado que foi de guer-</p><p>ra, de derramamentos de sangue, uma Euro-pa em constante clima de tenso. Uma Euro-pa em que foras opostas combatiam entre si, alheadas das suas prprias popula-es e arriscando a </p><p>vida de uma comuni-dade inteira, deixada nas mos de uma dis-puta, mais que blica, ideolgica. Naquele Agosto de 1961, no centro do velho continente, er-guia-se uma estrutu-ra de imponncia </p><p>aterrorizadora que vinha alterar a geo-grafia de um pas, de-lineando uma verda-deira fronteira fsica, que tornaria efectiva a diviso j existente entre a Repblica Fe-deral da Alemanha e </p><p>a Repblica Demo-crtica Alem. Dividia tambm o Mundo, ajudando a cimentar a terminologia ainda hoje vigente, descrita na dicotomia Orien-te/Ocidente e agudi-zando a Guerra Fria que se desenrolava ao ritmo de uma Cor-tina de Ferro, tal co-mo Churchill eterni-zou. De um lado, as po-tncias ocidentais e capitalistas, com os Estados Unidos da Amrica enquanto grande protagonista; do outro as (ou a) potncias socialistas, que se moviam no movimento da batu-ta da Unio Sovitica. No centro, a Alema-nha, ou melhor, as Alemanhas. Era o Muro o princi-pal smbolo desta disputa. Era a Europa o seu tabuleiro. Ali, naquele territrio, as liberdades eram constantemente vio-ladas, famlias intei-ras separadas por uma barreira de ci-mento com mais de quatro metros de al-</p><p>tura. Vidas destroa-das em prol de um conflito cujo trmino no se fazia prever. 25 Anos passados, no dia 9 de Novembro de 1989, o Muro caiu. E com ele, no espao de dois anos, caiu tam-bm a Unio Sovitica que vinha a perder fora devido aos con-flitos internos que a governao de Gor-bachev causava desde 1980 o que valeu ao ento lder sovitico uma tentativa de Gol-pe de Estado em Agosto de 1991. O to-talitarismo de leste havia chegado ao fim, e s assim foi possvel ingressar num novo perodo de paz mundi-al, do qual a Europa foi a principal benefi-ciada. A histria, tal como a conhecemos, no po-de nunca ser apagada, pois s o reviver do passado nos permite evitar erros no futuro. Ainda assim, 25 anos depois do fim de um dos perodos mais ne-gros do sculo passa-do, vimos emergir atu-almente um saudosis-</p><p>Muro de Berlim SAPO </p></li><li><p>COLUNA EX LIBRIS </p><p>O Preo da Desigualdade </p><p>Joseph Stiglitz (2001) </p><p>Rui Coelho </p><p>A igualdade e a sua ausncia so, em conjunto com a li-berdade, uma das preocupaes cen-trais da teoria polti-ca moderna em qua-se todas as cores do espectro ideolgico. Esta questo revela-se especialmente pretinente num con-texto poltico e eco-nmico como o caso portugus, marcado por notveis dificul-dades e sacrifcios. O Preo da Desigual-dade prope-se a abordar essas mes-mas questes, real-ando as consequn-cias negativas das desigualdades de poder e rendimento, que resultam do ac-tual modelo de rela-es entre a poltica e a economia. A </p><p>obra da autoria de Joseph Stigliz, cle-bre economista dis-tinguido com o Pr-mio Nobel em 2001, pela sua teorizao do funcionamento do mercado em situa-es de informao assimtrica. A sua carreira na adminis-trao Clinton e, mais tarde, no Banco Mundial, tornaram-no numa referncia e tambm num porta-voz to ilustre quan-to controverso. Procurando expor a interferncia dos in-teresses econmicos nos processos polti-cos, Stiglitz demons-tra como a desigual-dade social, decor-rente desta relao, tem impactos pro-fundamente negati-vos em todas as </p><p>reas da vida poltica democrtica, desde os mecanismos judici-ais prpria produ-o legislativa. Trata-se de uma obra mar-cada pela desonesti-dade intelectual e pe-la falta de imaginao poltica. Estas carac-tersticas esto pre-sentes desde o prlo-go, onde o autor se tenta afirmar en-quanto a inspirao por detrs do movi-mento Occupy, ao mesmo tempo que disfara os activistas em causa da claque pro-Obama; at s concluses finais que propem uma recu-perao quase inte-gral e acrtica do mo-delo econmico For-dista-Keynesiano, tra-dicionalmente ro-mantizado pelo cen-tro-esquerda. </p><p>06 | O ESPECTRO 10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>mo perigoso que, se-gundo o prprio Gor-bachev, deixa o Mun-do merc de uma nova Guerra Fria. No temos muros a dividir a Europa, no temos uma Unio So-vitica a querer ex-pandir a sua ideologia, mas temos Putin. Te-mos o homem forte da Rssia a levar a ca-bo constantes movi-mentaes militares, primeiro na Crimeia (Ucrnia) e agora em demonstraes de fora e capacidade militar em vrios pa-ses europeus, dos quais Portugal parece surgir enquanto desti-no privilegiado. Assim, revivendo a histria e tomando precaues para o fu-turo, celebremos o dia 9 de Novembro, cele-bremos os 25 anos da queda do Muro de Berlim e desejemos que os cem muros do passado nos permi-tam uma Europa sem muros, agora e sem-pre! </p></li><li><p>POLTICA EXTERNA </p><p>O movimento </p><p>democrtico em </p><p>Hong Kong </p><p>Rui Coelho </p><p>Hong Kong um terri-trio chins que abrange um espao continental, as ilhas de Lantau e Hong Kong, bem como v-rias outras localidades insulares menores. A habitam, no total, se-te milhes de pessoas, fazendo de Hong Kong a quarta comunidade poltica com maior densidade populacio-nal do mundo. A sua prosperidade material deve-se ao volumoso investimen-to estrangeiro e sua propenso para as fi-nanas internacionais, heranas do passado colonial da ilha chine-sa. De facto, Hong Kong foi uma colnia britnica at 1997, ano em que o Reino Unido celebrou um acordo com a Repbli-ca Popular da China </p><p>que transferia o dis-putado territrio me-diante a garantia da sua autonomia at 2037. sob esta lgi-ca autonmica que as autoridades chine-sas se basearem ao afirmarem um pas, dois sistemas, ou seja, Hong Kong pos-sui os seus prprios sistemas monetrio, poltico, partidrio, educativo e postal. As foras polticas hong kongers agru-pam-se em duas ali-anas, ou seja, con-forme a sua lealdade penda mais a favor do regime chins ou da autonomia e de-mocracia na regio. Este segundo grupo, apelidado de pan-democrtico, integra partidos de esquer-da, direita e centro, bem como ONGs, </p><p>acadmicos e associ-aes estudantis. Apesar de pouco ide-olgica, defendendo objectivos gerais co-mo a democracia, o multipartidarismo e os direitos humanos, a aliana goza de um abundante financia-mento. Foi este grupo que, inspirado pela mo-desta acampada do movimento Occupy Hong Kong, promo-veu um ultimato ameaando a ocupa-o das principais avenidas da cidade, caso a eleio do chefe do executivo, em 2017, no fosse por eleio directa, mediante sufrgio universal. Esta solu-o encontrava-se em sintonia com as promessas por parte do regime chins, de uma reforma eleito-ral que substitusse o actual sistema de no-meao indirecta por uma alternativa mais democrtica. Com os estudos de opinio a demonstrar o cepti-cismo dos cidados face a esta iniciativa, </p><p>os promotores assu-miram derrota e can-celaram a ocupao. Em Setembro, Beijing anunciou a reforma eleitoral planeada. Es-ta prev a seleco prvia dos candidatos submetidos a sufrgio popular por parte de um comit eleitoral ligado aos interesses do regime e desprovi-do de legitimidade de-mocrtica. Em respos-ta a esta deciso, v-rias associaes de estudantes iniciaram uma ocupao das principais avenidas da cidade a 22 de Setem-bro. O sucesso da mesma levou a uma coligao pan-democrtica a repen-sar o cancelamento, acabando por se jun-tar aos protestos. Os milhares de cida-dos que ocupam, desde Setembro, a avenida central da ci-dade de Hong Kong, cedo enfrentaram uma violenta repres-so policial. Tal fen-meno levou, no s, a um notvel cresci-mento do nmero de participantes, como </p><p>10 NOVEMBRO 2014 www.facebook.com/OEspectro </p><p>O ESPECTRO | 07 </p></li><li><p>tambm, consagra-o do guarda-chuva usado pelos manifes-tantes para se prote-gerem tanto da chuva como do gs pimenta, tornando-se um sm-bolo do movimento. Alm dos confrontos com a polcia, a luta pela democracia em Hong Kong tem-se confrontado com vio-lncia por parte de grupos pro-Beijing e de mfias locais, ame-aadas pela perturba-o das actividades comerciais no centro da cidade. Sobre o futuro do mo-vimento e das suas aspiraes polticas, cabe apontar que este sofre de uma viso muito redutora da participao poltica. O slogan queremos democracia e nada mais reflecte uma viso excessivamente optimista do processo eleitoral democrtico, que o coloca errada-mente no papel de solucionador para to-dos os problemas so-ciais do territrio asi-tico, que mais desi-gual. Ademais, preo-</p><p>cupante a deriva po-pulista, liderada por grupos como a Paixo Cvica, que tm usado a luta de-mocrtica para difun-dir os seus princpios nacionalistas e de anti-imigrao. Apesar de todos es-tes aspectos, no h dvida de que se tra-ta de um movimento que visa a auto-determinao do po-vo hong konger e, independentemente do impacto que con-siga alcanar no que toca ao processo eleitoral para 2017, tem a virtude de alte-rar significativamen-te as noes de parti-cipao e sobera...</p></li></ul>