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N 86

Relaes comerciais e de investimentos do Brasil com os demais pases do BRICS

13 de abril de 2011

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Comunicados do Ipea Os Comunicados do Ipea tm por objetivo antecipar estudos e pesquisas mais amplas conduzidas pelo Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada, com uma comunicao sinttica e objetiva e sem a pretenso de encerrar o debate sobre os temas que aborda, mas motiv-lo. Em geral, so sucedidos por notas tcnicas, textos para discusso, livros e demais publicaes. Os Comunicados so elaborados pela assessoria tcnica da Presidncia do Instituto e por tcnicos de planejamento e pesquisa de todas as diretorias do Ipea. Desde 2007, mais de cem tcnicos participaram da produo e divulgao de tais documentos, sob os mais variados temas. A partir do nmero 40, eles deixam de ser Comunicados da Presidncia e passam a se chamar Comunicados do Ipea. A nova denominao sintetiza todo o processo produtivo desses estudos e sua institucionalizao em todas as diretorias e reas tcnicas do Ipea.

Governo Federal Secretaria de Assuntos Estratgicos da Presidncia da Repblica Ministro Wellington Moreira Franco Fundao pblica vinculada Secretaria de Assuntos Estratgicos da Presidncia da Repblica, o Ipea fornece suporte tcnico e institucional s aes governamentais possibilitando a formulao de inmeras polticas pblicas e programas de desenvolvimento brasileiro e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus tcnicos. Presidente Marcio Pochmann Diretor de Desenvolvimento Institucional Fernando Ferreira Diretor de Estudos e Relaes Econmicas e Polticas Internacionais Mrio Lisboa Theodoro Diretor de Estudos e Polticas do Estado, das Instituies e da Democracia Jos Celso Pereira Cardoso Jnior Diretor de Estudos e Polticas Macroeconmicas Joo Sics Diretora de Estudos e Polticas Regionais, Urbanas e Ambientais Liana Maria da Frota Carleial Diretor de Polticas Setoriais de Inovao, Regulao e Infraestrutura Mrcio Wohlers de Almeida Diretor de Estudos e Polticas Sociais Jorge Abraho de Castro Chefe de Gabinete Prsio Marco Antonio Davison

Assessor-chefe de Imprensa e Comunicao Daniel Castro URL: http://www.ipea.gov.br Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria

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1. Introduo1 O acrnimo criado em 2001 no Global Economics Paper n 66 (Building Better

Global Economic BRICs) da agncia Goldman Sachs e popularizado em 2003, no artigo

n99 da mesma srie, com o ttulo Dreaming With BRICs: The Path to 2050, repete-se

como mantra e ainda causa estranheza por cada um dos pases que compem as

desejadas letras do proclamado novo centro dinmico do crescimento mundial. Alguns

tentaram, em vo, retirar um ou outro pas da sigla, como no artigo Taking the R out of

the BRIC, da agncia Knowledge Wharton, publicado em 2010, mas, por ora, o grupo

tem-se expandido e atualmente composto por Brasil, Rssia, ndia, China e frica do

Sul (BRICS).

A importncia desse jogo de letras para os Estados, as agncias e para todos os

interessados em negcios internacionais que isso expressa um deslocamento

fundamental da dinmica de acumulao global para pases antes considerados

secundrios (ou do antigo segundo mundo socialista) s decises transacionais de

investimento. A evidncia desse fenmeno o crescimento da demanda global, que se

concentrou no BRICS nos ltimos anos, sobretudo durante e depois da crise

internacional. No perodo 2008-2009, o grupo explicou 2/3 do crescimento da demanda

global, com a expectativa de que sigam contribuindo de forma majoritria para os

prximos 10 anos.

Longe de constituir um bloco econmico ainda que permeados por

mecanismos diplomticos de concertao mais institucionalizados, como o Frum ndia,

Brasil e frica do Sul (IBAS), o grupo formado por pases profundamente diferentes

entre si. A igualdade que os uniu foi o dinamismo econmico interno de cada economia

e o desejo de articular uma arquitetura global de Estados mais favorvel insero

desses pases. A heterogeneidade do grupo, no entanto, pode ser observada pelas

distintas contribuies de cada um desses pases para o crescimento da demanda

mundial (renda nacional bruta em termos de paridade poder de compra). Entre 2008-

2009 a participao da China foi de 40%; ndia 12,5%; Rssia, 6,3%; Brasil 3,5%; e

frica do Sul, 0,7%.

A presena desses pases nos fluxos de capitais tambm aumentou. Observa-se

que o grupo ampliou sua importncia como receptores de investimento direto

1 Colaboraram para esse Comunicado: Luciana Acioly, Flvio Lyrio, Andr Pineli, Elton Jony, Andr Calixtre, Eduardo Pinto, Marcos Cintra, Wesley de Jesus e Dbora Albuquerque. Agradecimento especial ao Embaixador Norton de Andrade Mello Rapesta, ao Conselheiro Fbio Mendes Marzano, ao Terceiro Secretrio Francisco Nelson de A. Linhares Jr e aos professores Dr. Fernando Sarti e Dr. Clio Hiratuka. Agradecimento adicional s sugestes de Renato Baumann.

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estrangeiro (IDE) nas ltimas duas dcadas, de modo que, em 2009, o BRICS recebeu

US$ 1 de cada US$ 4,5 investido no mundo, e recebeu 1/5 dos fluxos globais de IDE

neste ano. De grandes absorvedores de investimentos, estes pases passaram, mais

recentemente, a intensificar o processo de internacionalizao produtiva de suas

empresas, ampliando seus investimentos no mundo: US$ 1 em cada US$ 7 investido no

exterior foi realizado por empresas do BRICS em 2009.

No que se refere ao comrcio mundial, tambm houve ampliao da participao

do BRICS antes e depois da crise internacional. Com relao s importaes, o grupo

foi responsvel por 15,7% do total importado mundial em 2009, sendo que a China

respondeu por 10,7%. No caso das exportaes, a participao do grupo foi ainda maior:

17,9%, com a China responsvel por 12,4%.

Deve-se ressaltar que tanto na demanda mundial quanto no comercio e no

investimento, a participao chinesa destaca-se por seu dinamismo. A China representa

claramente a locomotiva no apenas para o crescimento global, mas tambm para os

demais pases do BRICS, o que tem implicaes profundas sobre a estabilidade do

grupo. As pretenses individuais e as grandes assimetrias existentes entre essas naes

vo trazer limites e possibilidades s relaes do Brasil com cada uma delas e que

precisam ser mais bem explicitados e discutidos.

O objetivo deste texto analisar, em termos sumrios, duas dimenses

importantes das relaes do Brasil com a Rssia, ndia, China e frica do Sul: o

intercmbio comercial e a realizao de investimentos entre o Brasil e esses pases. Para

esta tarefa, o trabalho encontra-se dividido em quatro partes, incluindo esta introduo.

Na segunda e terceira partes ser apresentado o perfil das relaes bilaterais de

comrcio e de investimentos entre o Brasil e cada um dos pases citados. Na quarta,

sero trazidas luz algumas questes para a agenda da poltica referentes aos desafios e

oportunidades a serem considerados pelo Brasil no mbito dessas relaes.

2. Relaes bilaterais de Comrcio

2.1. Brasil-Rssia

As relaes comerciais do Brasil com a Rssia ainda encontram-se em

patamares pouco significativos em termos de volume. O valor total das trocas entre os

5

dois pases, porm, cresceu cerca de seis vezes ao longo da dcada, passando de pouco

menos de um bilho de dlares em 2000 para US$ 6 bilhes em 2010 aumentando,

portanto, num ritmo quase duas vezes mais rpido que o comrcio brasileiro com o resto

do mundo no mesmo perodo. No obstante, a participao da Rssia na corrente global

de comrcio brasileira foi de 1,58% em 2010, aps um pico de 2,15% em 2008.

Grfico 1: Corrente de comrcio Brasil Rssia, 2000-2010

2.000

4.000

6.000

8.000

10.000

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 20100,00%

0,50%

1,00%

1,50%

2,00%

2,50%

US$(milhes) Participao

Fonte: UN/Comtrade. Elaborao: Ipea.

Ao se analisar exportaes e importaes separadamente, a trajetria do

comrcio brasileiro com a Rssia apresenta as seguintes tendncias: o valor total

exportado para a Rssia mais que decuplicou entre 2000 e 2008, passando de US$ 423

milhes para US$ 4,6 bilhes, mas a crise econmica mundial eclodida em 2008 afetou

severamente este fluxo, que caiu para US$ 2,8 bilhes em 2009. J no ano seguinte, as

exportaes se recuperaram, alcanando US$ 4,1 bilhes. Em termos relativos, a

participao das exportaes brasileiras para a Rssia oscilou entre 2 e 2,5% em quase

todos os anos da srie conforme o grfico 2.

Grfico 2: Exportaes brasileiras para a Rssia

1.000

2.000

3.000

4.000

5.000

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 20100,00%

0,50%

1,00%

1,50%

2,00%

2,50%

3,00%

US$(mihes) Participao

Fonte: UN/Comtrade. Elaborao: Ipea.

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No que se referem s importaes, estas mantiveram-se relativamente estveis

at 2005, passando ento a crescer de maneira rpida at 2008, quando alcanaram US$

3,3 bilhes, como mostra o grfico 3. A crise, contudo, impactou severamente no fluxo

de importao originria da Rssia, caindo a menos da metade em 2009. Entretanto, ao

contrrio das exportaes, no houve recuperao to intensa em 2010, registrando-se

US$ 1,9 bilho, pouco mais da metade do pico al