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publicação dos estudantes da fau, junho.2014

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  • 1:1000 URGENTE

  • A 1:1000 uma publicao independente aberta contribuio e participao de qualquer estudante, funcionrio ou docente.

    Cada 1:100 possui um comit editorial responsvel pelo recebimento das produes grficas, textos e diagramao, assim como a parte de edio e possvel escolha de um tema.

    Esta 1:1000 URGENTE! Possui como enfoque o contexto atual da FAU, da USP e da cidade e foi chamada na perspectiva de reunir todas as pautas ligadas aos acontecimentos mais recentes: reforma da cobertura, estdio-museu, mudanas no ensino, movimento estudantil, greve contra o reajuste 0% dos trabalhadores e docentes da USP, manifestaes e greves de diversas classes sociais e movimentos polticos...

    Outras 1:1000 de carter completamente diverso ou completamente semelhante podem ser chamadas a qualquer momento.

    comit editorial Alessandra Iturrieta, Ana Carolina Nicolay, Camila Onia, Felipe Souza, Gabriele Rodrigues, Gabriella DeBiaggi, Joo Geddo, Tarsila Bianchi.

    diagramao Alinne Anno, Eugnia Pessoa Hanitzsch, Felipe Souza.

    foto de capa Joo Guilherme Oliveira.

    EDITORIAL 1:1000

  • PRIVATIZAO DA UNIVERSIDADE

    Este texto pretende contextualizar a USP na inflexo da concepo do ensino superior no Brasil, passando pela histria e a situao na qual se encontra esta Universidade.

    Na repblica Velha consolidou-se o uso do ensino superior como instrumento das elites, com formao pouco especializada e visando, principalmente, a burocracia governamental. Mesmo com diversas presses de movimentos sociais, proposta de reforma universitria na USP, e movimentaes para transformao do ensino, como as observadas na FAU na dcada de 60, tal projeto se manteve, de forma mais ou menos semelhante at a ditadura militar. Nesse momento comea com mais fora a aplicao de polticas que transformariam e apontariam para outra concepo de ensino superior. A educao passa a ser configurada como mercadoria, e o diploma universitrio como especializao para o atendimento do mercado de trabalho. Institui-se assim um ensino que visa o atendimento individual dos estudantes, sua ascenso social principalmente devido integrao ao mercado. No final da ditadura militar baixado um decreto que permite a criao de universidades particulares e comea com fora a massificao do ensino superior voltada ao atendimento das demandas do mercado. Nas Universidades pblicas, no so ampliadas as vagas ou pautado o desenvolvimento do conhecimento que visa a alterao da sociedade, o que as mantm como instrumento das classes dominantes. No limite, o que ocorre a inflexo de um ensino restrito para as elites a expanso de uma educao para reproduo da fora de trabalho de uma classe mdia.

    Na USP, movimentos que buscavam a instituio de uma universidade pblica foram cortados bruscamente pela ditadura militar. Hoje, nossa instituio de ensino ainda mantm diversas caractersticas do ensino superior das elites e passa, mais fortemente nos ltimos anos, por uma inflexo rumo transformao para a universidade mercadolgica. As ltimas medidas tomadas pelo estado e pela burocracia da Universidade apontam para medidas privatizantes e pela acentuao da formao mercadolgica do ensino, sem nem colocar em pauta a possibilidade da criao de uma universidade verdadeiramente pblica.

    A possibilidade do pagamento de mensalidades na Universidade consequncia lgica da concepo da educao como mercadoria, e no como produo de conhecimento com objetivo de alterao da sociedade. Alm disso, o comprometimento do pagamento de estudantes com o oramento da USP impossibilitaria que essa tivesse sua composio social alterada, estimulando a universidade a sempre

    buscar estudantes que pagassem mais pelo curso. Isso faria com que a USP se comportasse como empresa, buscando obter mais financiamento dos estudantes para conseguir mais verbas.

    A poltica de austeridade e corte de gastos o clssico caminho para adoo de polticas liberais. Diminui-se a parte do oramento gerida pelo poder pblico e aumenta-se a parcela gerida pelo poder privado. O corte de gastos para projetos de extenso, por exemplo, evidencia a negao ao carter pblico da universidade, ao mesmo tempo que avanam as bolsas de iniciao cientfica fornecidas por empresas, a partir de suas prprias demandas, principalmente em institutos como Poli e Fea.

    O arrocho salarial de professores e funcionrios um grande ataque aos que trabalham na universidade e ao mesmo tempo uma poltica de desvalorizao do funcionrio pblico. O no aumento do salrio de acordo com a inflao , na prtica, a diminuio do salrio. Um exemplo da implementao dessa poltica foi o que aconteceu com a educao bsica durante e posteriormente o perodo da ditadura: a desvalorizao dos professores e funcionrios da rede pblica favoreceu a implementao das escolas privadas na educao bsica.

    Outra poltica de privatizao a terceirizao dos servios e funcionrios da USP. Coloca-se o dinheiro na mo de atravessadores, as empresas contratadas, que descontado do pagamento dos funcionrios contratados por elas. Essa forma de contratao tambm dificulta muito a organizao dos empregados e representa a substituio da gerncia pblica da universidade pela privada.

    A insuficincia de polticas de permanncia (moradia, alimentao, transporte, etc.) no permite que muitas pessoas consigam ser, propriamente, estudantes durante sua formao, tendo que trabalhar para se sustentar. Os que escapam a isso so os que tem privilgio de classe. Muitos nem cogitam entrar na USP por no conseguir se sustentar. A insuficincia da permanncia estudantil mais um apontamento da educao como mercadoria, uma vez que nisso est contida a concepo de que deve fazer a universidade quem consegue arcar com ela.

    Frente a inflexo da universidade de elite para a universidade do ensino mercadoria, uma proposta no foi levantada, a da universidade pblica. Lutemos por ela.

    Joo Geddo comit editorial

  • ...todos os fatos e personagens de grande importncia na histria do mundo ocorrem, por

    assim dizer, duas vezes (...): a primeira vez como tragdia, a segunda como farsa.

    Karl Marx

    A lei no garante o bem pblico.

    Esse deve ser um entendimento base para que possamos analisar os significados de polticas legalistas como as do atual reitor da USP, Marco Antonio Zago. Ele tomou posse no incio do ano com a promessa de cumprir o papel de bom-moo, para botar ordem na universidade. Essas ideias ganharam ampla aceitao devido s heranas deixadas pela gesto anterior, de Joo Grandino Rodas.

    O ex-reitor ficou conhecido por seu autoritarismo. Aes de coero das mobilizaes de funcionrios e docentes - tanto com reforos positivos para os que no se envolviam em atividades polticas, quanto com a implementao de um sistema de progresso de carreira para os funcionrios que, alm disso, penalizava aqueles que se mobilizavam - somadas firmao de um convnio da USP com a PM, a entrada da tropa de choque para realizar a reintegrao de posse da reitoria, ento ocupada, e a priso de 72 estudantes so apenas alguns dos exemplos mais evidentes.

    Alm disso, Rodas tambm deixou uma marca em relao ao montante de gastos realizados durante sua gesto. A construo simultnea de diversos edifcios de grande porte, a realizao de um projeto de iluminao super-faturado e a troca da frota de carros da USP antes do prazo previsto so alguns dos fatores para tais gastos, os quais, em grande parte, ainda no esto de fato explicados.

    Frente a este quadro, surge na opinio pblica a ideia de que Zago teria a tarefa de arrumar a baguna feita por Rodas. Esta construo de

    O AUTORITARISMO E A IMAGEM DA DEMOCRACIA

    raciocnio, muito pautada no senso comum, envolve tambm uma noo de que o mal feito por Rodas foi apenas sua corrupo, o dinheiro da universidade que sabe-se que foi gasto para fins particulares. Isso abre margem para a concluso de o que deveria ser feito agora seria enquadrar a USP nos parmetros legais e deixar todas as irregularidades s claras.

    A ideia de regularizar a USP, colocando-a na esfera da legalidade, no entanto, est servindo para que sejam tomadas atitudes que vo muito alm de simplesmente expor os acordos de desvios de verba. Est servindo - numa apenas aparente contradio - para continuar processos que vem da gesto Rodas.

    A lei no permite, por exemplo, diversas prticas estruturadoras das organizaes estudantis, sendo uma das mais importantes a gesto de espaos das unidades pelos centros acadmicos ou grmios. De acordo com a lei, no pode haver apropriao privada do espao e os estabelecimentos comerciais alocados em espaoes pblicos devem passar por licitao (que faz com que o aluguel seja recebido pela instituio legalmente responsvel pelo espao). Em abstrato, essas determinaes podem no ser ruins. Mas quando olhamos para a realidade, percebemos que elas impossibilitam a existncia de espaos estudantis independentes e organizaes com autonomia financeira. Vale dizer que, em paralelo, mas no por acaso, j se fala das intenes de se criar um espao especfico, autorizado pela reitoria, para que os estudantes faam festas. Mascarada de abertura e conceo, trata-se de nada mais do que uma poltica de controle e separao do que seria o espao da aula em relao ao espao da festa (ignorando tambm outras atividades dos estudantes que no se enquadram no carter de grandes festas).

    Alm disso, importante perceber que muitas das prticas da gesto Rodas ocorreram dentro da legalidade. A Polcia Militar pode muito bem, de

  • acordo com a lei, continuar no campus. Processar estudantes por atentarem contra a moral e os bons costumes tambm completamente lcito. Enquanto a venda de bebidas alcolicas no campus , afinal, proibida por lei estadual.

    A imagem de que Zago seria uma anttese de Rodas, trazendo a democratizao e adequao da universidade falsa. O que est em questo no so diferenas de personalidade, uma mais autoritria e outra mais aberta, mas sim, duas etapas de