1.1 o servico_social_na_cena_contemporanea_1

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<ul><li> 1. O Servio Social na cena contempornea Marilda Villela Iamamoto Professora titular da Faculdade de Servio Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro </li> <li> 2. 1 Esse pas no meu. Nem vosso ainda, poeta. Mas ele ser um dia O pas de todo homem. C. D. Andrade. Amrica. O Servio Social na cena contempornea Este texto, de carter introdutrio ao curso de especializao Servio Social: Direitos Sociais e Competncias Profissionais, prope apresentar uma viso panormica do Servio Social na atualidade, considerando esta temtica central. Ele se compe de quatro partes: a introduo analisa, sob um vis crtico, as competncias profissionais, resguardadas pela legislao, no mbito do projeto do Servio Social brasileiro contemporneo, comprometido com a defesa dos direitos; a segunda parte apresenta a anlise do Servio Social no mbito das relaes entre as classes socais e destas com o Estado e o significado social da profisso no processo de reproduo das relaes sociais; a terceira parte trata das relaes entre trabalho, questo social e Servio Social na era das finanas; a quarta parte aborda os direitos e competncias profissionais no marco das tensas relaes entre os princpios norteadores do projeto profissional e a condio de trabalhador assalariado do assistente social; finalmente, situa alguns desafios histricos que se apresentam aos assistentes sociais na cena contempornea. O ponto de partida da anlise o de que a luta pela afirmao dos direitos hoje tambm uma luta contra o capital, parte de um processo de acumulao de foras para uma forma de desenvolvimento social, que possa vir a contemplar o desenvolvimento de cada um e de todos os indivduos sociais. Esses so, tambm, dilemas do Servio Social. </li> <li> 3. 2 Introduo Este curso, ao eleger direitos sociais e competncias profissionais como eixos do debate sobre o Servio Social na cena contempornea, responde tanto a reais demandas da categoria profissional em seu labor cotidiano quanto cobre uma importante lacuna na literatura especializada recente sobre a temtica das competncias profissionais numa perspectiva histrico-crtica. As competncias aqui referidas no se confundem com o discurso da competncia (CHAU, 1989), institucionalmente permitido e autorizado pelas instncias burocrticas dos organismos empregadores. Nessa estratgia de ocultamento e dissimulao do real, o poder aparece como se emanasse de uma racionalidade prpria do mundo da burocracia, acoplado a um discurso neutro da cientificidade. So as exigncias burocrticas e administrativas que tm de ser cumpridas, obedecendo a formas de ao pr-traadas, que devem ser apenas executadas com eficcia. A competncia a personificada no discurso do administrador burocrata, da autoridade fundada na hierarquia que dilui o poder sob a aparncia de que no exercido por ningum. No , pois, dessa competncia que se trata, mas do seu reverso: a competncia crtica capaz de desvendar os fundamentos conservantistas e tecnocrticos do discurso da competncia burocrtica. O discurso competente crtico quando vai raiz e desvenda a trama submersa dos conhecimentos que explica as estratgias de ao. Essa crtica no apenas mera recusa ou mera denncia do institudo, do dado. Supe um dilogo ntimo com as fontes inspiradoras do conhecimento e com os pontos de vista das classes por meio dos quais so construdos os discursos: suas bases histricas, a maneira de pensar e interpretar a vida social das classes (ou segmentos de classe) que apresentam esse discurso como dotado de universalidade, identificando novas lacunas e omisses. Assim, a competncia </li> <li> 4. 3 crtica supe: a) um dilogo crtico com a herana intelectual incorporada pelo Servio Social e nas autorrepresentaes do profissional, cuja porta de entrada para a profisso passa pela histria da sociedade e pela histria do pensamento social na modernidade, construindo um dilogo frtil e rigoroso entre teoria e histria; b) um redimensionamento dos critrios da objetividade do conhecimento, para alm daqueles promulgados pela racionalidade da burocracia e da organizao, que privilegia sua conformidade com o movimento da histria e da cultura. A teoria afirma-se como expresso, no campo do pensamento, da processualidade do ser social, apreendido nas suas mtuas relaes e determinaes, isto , como concreto pensado (MARX, 1974). Esse conhecimento se constri no contraponto permanente com a produo intelectual herdada, incorporando-a criticamente e ultrapassando o conhecimento acumulado. Exige um profissional culturalmente versado e politicamente atento ao tempo histrico; atento para decifrar o no-dito, os dilemas implcitos no ordenamento epidrmico do discurso autorizado pelo poder; c) uma competncia estratgica e tcnica (ou tcnico-poltica) que no reifica o saber fazer, subordinando-o direo do fazer. Os rumos e estratgias de ao so estabelecidos a partir da elucidao das tendncias presentes no movimento da prpria realidade, decifrando suas manifestaes particulares no campo sobre o qual incide a ao profissional. Uma vez decifradas, essas tendncias podem ser acionadas pela vontade poltica dos sujeitos, de modo a extrair estratgias de ao reconciliadas com a realidade objetiva, de maneira a preservar sua viabilidade, reduzindo assim a distncia entre o desejvel e o possvel. Essa perspectiva recusa tanto o messianismo utpico que privilegia as intenes do sujeito profissional individual em detrimento da anlise histrica do movimento do real, numa viso herica e ingnua das possibilidades revolucionrias do exerccio profissional quanto o fatalismo, inspirado em anlises que naturalizam a vida social e traduzido numa viso perversa da profisso. Como a ordem do capital tida como natural e perene, apesar das desigualdades evidentes, o assistente social encontrar-se-ia atrelado s malhas de um poder tido como monoltico nada lhe restando a fazer. No mximo, caberia a ele aperfeioar formal e burocraticamente as tarefas que so atribudas aos quadros profissionais pelos demandantes da profisso (IAMAMOTO, 1992). </li> <li> 5. 4 O Servio Social brasileiro contemporneo apresenta uma feio acadmico- profissional e social renovada, voltada defesa do trabalho e dos trabalhadores, do amplo acesso a terra para a produo de meios de vida, ao compromisso com a afirmao da democracia, da liberdade, da igualdade e da justia social no terreno da histria. Nessa direo social, a luta pela afirmao dos direitos de cidadania, que reconhea as efetivas necessidades e interesses dos sujeitos sociais, hoje fundamental como parte do processo de acumulao de foras em direo a uma forma de desenvolvimento social inclusiva para todos os indivduos sociais. Esse processo de renovao crtica do Servio Social fruto e expresso de um amplo movimento de lutas pela democratizao da sociedade e do Estado no pas, com forte presena das lutas operrias, que impulsionaram a crise da ditadura militar: a ditadura do grande capital (IANNI, 1981). Foi no contexto de ascenso dos movimentos polticos das classes sociais, das lutas em torno da elaborao e aprovao da Carta Constitucional de 1988 e da defesa do Estado de Direito, que a categoria de assistentes sociais foi sendo socialmente questionada pela prtica poltica de diferentes segmentos da sociedade civil. E no ficou a reboque desses acontecimentos, impulsionando um processo de ruptura com o tradicionalismo profissional e seu iderio conservador. Tal processo condiciona, fundamentalmente, o horizonte de preocupaes emergentes no mbito do Servio Social, exigindo novas respostas profissionais, o que derivou em significativas alteraes nos campos do ensino, da pesquisa, da regulamentao da profisso e da organizao poltico- corporativa dos assistentes sociais. Nesse lapso de tempo, o Servio Social brasileiro construiu um projeto profissional radicalmente inovador e crtico, com fundamentos histricos e terico-metodolgicos hauridos na tradio marxista, apoiado em valores e princpios ticos radicalmente humanistas e nas particularidades da formao histrica do pas. Ele adquire materialidade </li> <li> 6. 5 no conjunto das regulamentaes profissionais: o Cdigo de tica do Assistente Social (1993), a Lei da Regulamentao da Profisso (1993) e as Diretrizes Curriculares norteadoras da formao acadmica (ABESS/CEDEPSS,1996, 1997a, 1997b; MEC- SESU/CONESS/Comisso de Especialistas de Ensino em Servio Social,1999; MEC-SESU, 2001). Os(as) assistentes sociais atuam nas manifestaes mais contundentes da questo social, tal como se expressam na vida dos indivduos sociais de distintos segmentos das classes subalternas em suas relao com o bloco do poder e nas iniciativas coletivas pela conquista, efetivao e ampliao dos direitos de cidadania e nas correspondentes polticas pblicas. Os espaos ocupacionais do assistente social tm lugar no Estado nas esferas do poder executivo, legislativo e judicirio , em empresas privadas capitalistas, em organizaes da sociedade civil sem fins lucrativos e na assessoria a organizaes e movimentos sociais. Esses distintos espaos so dotados de racionalidades e funes distintas na diviso social e tcnica do trabalho, porquanto implicam relaes sociais de natureza particular, capitaneadas por diferentes sujeitos sociais, que figuram como empregadores (o empresariado, o Estado, associaes da sociedade civil e, especificamente, os trabalhadores). Elas condicionam o carter do trabalho realizado (voltado ou no lucratividade do capital), suas possibilidades e limites, assim como o significado social e efeitos na sociedade. Ora, as incidncias do trabalho profissional na sociedade no dependem apenas da atuao isolada do assistente social, mas do conjunto das relaes e condies sociais por meio das quais ele se realiza. Nesses espaos profissionais os(as) assistentes sociais atuam na sua formulao, planejamento e execuo de polticas pblicas, nas reas de educao, sade, previdncia, </li> <li> 7. 6 assistncia social, habitao, meio ambiente, entre outras, movidos pela perspectiva de defesa e ampliao dos direitos da populao. Sua atuao ocorre ainda na esfera privada, principalmente no mbito do repasse de servios, benefcios e na organizao de atividades vinculadas produo, circulao e consumo de bens e servios. Mas eles(as) tambm marcam presena em processos de organizao e formao poltica de segmentos diferenciados de trabalhadores (CFESS, 15/05/2008). Nesses espaos ocupacionais esses profissionais realizam assessorias, consultorias e superviso tcnica; contribuem na formulao, gesto e avaliao de polticas, programas e projetos sociais; atuam na instruo de processos sociais, sentenas e decises, especialmente no campo sociojurdico; realizam estudos socioeconmicos e orientao social a indivduos, grupos e famlias, predominantemente das classes subalternas; impulsionam a mobilizao social desses segmentos e realizam prticas educativas; formulam e desenvolvem projetos de pesquisa e de atuao tcnica, alm de exercem funes de magistrio, direo e superviso acadmica. Os assistentes sociais realizam assim uma ao de cunho socioeducativo na prestao de servios sociais, viabilizando o acesso aos direitos e aos meios de exerc-los, contribuindo para que necessidades e interesses dos sujeitos sociais adquiram visibilidade na cena pblica e possam ser reconhecidos, estimulando a organizao dos diferentes segmentos dos trabalhadores na defesa e ampliao dos seus direitos, especialmente os direitos sociais. Afirma o compromisso com os direitos e interesses dos usurios, na defesa da qualidade dos servios sociais. </li> <li> 8. 7 A Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993, que regulamenta a profisso, estabelece respectivamente nos seus artigos 4o e 5o as competncias1 e atribuies2 privativas do assistente social. As competncias expressam capacidade para apreciar ou dar resolutividade a determinado assunto, no sendo exclusivas de uma nica especialidade profissional, pois so a ela concernentes em funo da capacitao dos sujeitos 1 Art. 4. Constituem competncia do Assistente Social: I elaborar, implementar, executar e avaliar polticas sociais junto a rgos da administrao direta ou indireta, empresas, entidades e organizaes populares; II elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas, e projetos que sejam do mbito de atuao do Servio Social com participao da sociedade civil; III encaminhar providncias e prestar orientao social a indivduos, grupos e populao; IV - (Vetado); V orientar indivduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa dos direitos; VI planejar, organizar e administrar benefcios e Servio Sociais; VII planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a anlise da realidade social e para subsidiar aes profissionais; VII prestar assessoria e consultoria a rgos da administrao pblica direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relao s matrias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matria relacionada s polticas sociais, no exerccio e na defesa dos direitos civis, polticos e sociais da coletividade; X planejamento, organizao e administrao de Servios Sociais e de Unidade de Servio Social; XI realizar estudos scio-econmicos com os usurios para fins de benefcios e servios sociais junto a rgos da administrao pblica direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. (CRESS-PR, 2007, p.7) 2 Art. 5. Constituem atribuies privativas do Assistente Social: I coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na rea de Servio Social; II planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Servio Social; III assessoria e consultoria a rgos da administrao pblica direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matria de Servio Social; IV - realizar vistorias, percias tcnicas, laudos periciais, informaes e pareceres sobre matria de Servio Social; V. assumir no magistrio de Servio Social tanto ao nvel de graduao como ps-graduao, disciplinas e funes que exijam conhecimentos prprios e adquiridos em curso de formao re...</li></ul>