10ª Edição - O Espectro

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<ul><li><p>O ESPECTRO Ncleo de Cincia Poltica - ISCSP UL 10 EDIO - 25 de Abril de 2014 </p><p>GENERAL GARCIA </p><p>DOS SANTOS </p><p>Vai ainda demorar </p><p>trs ou quatro </p><p>geraes para o pas </p><p>ser completamente </p><p>democrtico </p><p>Entrevista, 6 </p><p>LIBERDADE DE </p><p>IMPRENSA </p><p>A conquista da </p><p>comunicao </p><p>Sociedade, 12 </p><p>CONFERNCIA </p><p>ISCSP </p><p>Os 40 anos do 25 de </p><p>Abril </p><p>Reportagem, 16 </p><p>25 DE ABRIL </p><p>OPINIO </p><p>Construo de um </p><p>povo livre </p><p>Pol tica, 8 </p></li><li><p>02 | 25 Abril 2014 </p><p>O ESPECTRO </p><p> FICHA TCNICA </p><p>Coordenao Adriana Correia Vice-Coordenao Joana Lemos Coordenador de Entrevistas e Reportagens Adriana Correia Reviso Adriana Correia e Cristina Santos Editor Isa Rafael Plataformas de Comunicao Andre Cabral, Jose Salvador, Joa o Martins e David Martins Cartaz Cultural Isa Rafael Redao Adriana Correia Andre Cabral Cistina Santos Gonalo Serpa Joana Lemos Joa o Martins Joa o Miguel Silva Joa o Pedro Louro Joa o Silva Jose Salvador Rui Campos Rui Sousa Marta Fernandes Tiago Sousa Santos </p><p>CONTACTOS Facebook: facebook.com/OEspectro Correio electrnico: jornaloespectro@gmail.com Twitter: twitter.com/O_Espectro </p></li><li><p>POLTICA </p><p>O P I N I O d e M A R TA F E R N A N D E S </p><p>Va l e u a p e n a ? </p><p>Numa altura em que atravessamos uma grave crise ao n vel econo mico, social e pol tico, Portugal comemora, hoje, dia 25 de Abril, 40 anos desde a Revolua o dos Cravos. Neste dia, as du vidas instalam-se nas mentes dos portugueses, valeu a pena? Era este o caminho que desejmos? Ser necessrio outra revoluo? A situaa o actual do pa s originou que muitos portugueses comeassem a duvidar dos reais benef cios do 25 de Abril. comum ouvir-se, numa troca de ideias, indiv duos que ira o sempre defender a ordem, a disciplina e o rigor que outrora vigorou, mesmo com toda a repressa o dos tempos ditatoriais a libertinagem e ao caos hoje instalado no nosso pa s. Na minha perspectiva, o 25 de Abril valeu e valera sempre a pena, pelo simples facto de termos alcanado a liberdade, a liberdade que todos desejavam ha muito, em todos os seus sentidos, sem censuras, sem medos, sem opresso es. Valera sempre a pena pelo derrube de uma ditadura tirana, a implantaa o de uma democracia livre. Valera sempre a pena pelo renascimento de um pa s que dava sinais de envelhecimento, isolamento e de atraso. Por tudo isto, merecera sempre a pena. Todavia, estas conquistas foram, ao longo destes 40 anos, manipuladas por um sistema que se fixou em Portugal e que o corro i. Posto isto, e, deixando a ditadura para tra s, soltos e livres dando os primeiros passos em liberdade, acaba mos por nos desencaminhar da verdadeira esse ncia dos valores de Abril. A pergunta que mais me perturba neste momento e se realmente e necessa rio outra revolua o. Creio que, neste momento e com a nossa posia o a n vel internacional, uma Revolua o Militar na o seja a </p><p> solua o mais adequada. Na minha perspectiva, as armas na o devem ser o instrumento revoluciona rio primordial mas deve ser sim a unificaa o do povo. E , por isso, necessa ria uma revolua o popular fundamentada, consistente, consciente de todos os obsta culos e que beba os mais nobres ideais democra ticos, afim de reunirem todos os esforos para a consolidaa o de bases devidamente fortificadas levando a concretizaa o dos mesmos. Os motivos desta revolua o popular sa o evidentes. Vivemos numa sociedade na qual o conceito de liberdade esta desvanecido. Fundamentado esta ideia, se no passado o povo na o tinha acesso a meios de comunicaa o social livres da opressa o pol tica, hoje em dia a informaa o continua a ser controlada e condicionada de uma forma menos clara, uma vez que esta continua dependente das grandes ma quinas partida rias. Por outro lado, com a liberdade excessiva dada aos meios de comunicaa o social, estes criam not cias que na o correspondem a realidade, manipulando assim a opinia o pu blica do pa s, isto e , os media acabam por fracassar no seu principal objectivo: a informaa o. </p><p> Apo s a libertaa o de um regime pol tico outrora instalado, comea mos a canalizar as nossas ateno es para um exterior mais instru do e evolu do. No entanto, com todos os nossos objectivos concentrados externamente, ambicionando alcanar o n vel de progresso desses mesmos pa ses desenvolvidos, esquecemo-nos de um facto importante. O pa s ainda na o estava preparado de forma consistente ao n vel tecnolo gico, cient fico, industrial e mesmo cultural. Se no passado, o pa s vivia isolado externamente e demasiado focado em si pro prio, a Revolua o de Abril levou a depende ncia excessiva do estrangeiro. Actualmente, Portugal na o tem a autonomia que deveria possuir para decidir as suas pro prias medidas pol ticas, logo a liberdade da naa o esta mais uma vez posta em causa. Para ale m desta care ncia da autonomia pol tica, ao n vel pessoal a situaa o mante m-se. Actualmente, o povo possui a liberdade de se manifestar sobre qualquer assunto, realidade que outrora era impedida. Pore m, mesmo com a realizaa o de constantes protestos levados a cabo pela populaa o, a voz do povo na o e ouvida. Apesar dos nossos governantes terem sido </p><p>eleitos legitimamente por via do sufra gio, estes perdem completamente a mencionada legitimidade quando na o cumprem as medidas anteriormente anunciadas. A liberdade que o povo possui para se manifestar contra o poder pol tico acaba por na o ter qualquer impacto nos governantes. E, se antigamente a populaa o estava proibida de expressar a sua opinia o sobre as medidas impostas pelo governo e este agia conforme as suas convico es, actualmente existe a liberdade de expressa o pore m os l deres pol ticos continuam a sobrepor os seus interesses a s vontades do povo. E importante tambe m realar o facto das eleio es apenas se darem de quatro em quatro anos, o que honestamente na o vai ao encontro dos reais valores de democracia. A populaa o deveria ser chamada com uma maior freque ncia afim de decidir sobre determinadas pol ticas fundamentais para o funcionamento do pa s. Em suma, na o e so necessa ria uma libertaa o pol tica como tambe m toda uma renovaa o de valores morais, com o objectivo de construir um regime pol tico baseado nos verdadeiros ideais democra ticos, justos e igualita rios que defendem a naa o primordialmente, objectivando o ta o desejado bem-comum. </p><p> 25 Abril 2014 | 03 </p><p>O ESPECTRO </p><p>DR </p></li><li><p>04 | 25Abril 2014 </p><p>O ESPECTRO </p><p>POLTICA </p><p>O P I N I O d e J O O M A R T I N S </p><p>S a l a z a r q u e e ra b o m </p><p>Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou j no se pode? Da gosto ouvir antigamente e que isto era bom. Da gosto ouvir isto com o Salazar e que era. Da gosto ouvir tenho saudades do meu amigo Salazar ou isto so la ia com um Salazar em cada esquina. Da gosto ouvir no Estado Novo o pa s era rico. Da gosto ouvir os pol ticos honestos eram os de antes. Da gosto ouvir que havia na Escola uma cultura de me rito, exige ncia, rigor, disciplina e trabalho". Da gosto ouvir que antes sabiam-se os rios e a tabuada de cor e que agora ja na o se aprende nada de jeito. Na o me lembro de uma altura da minha vida (consciente) em que na o tivesse ouvido pelo menos uma das tolices acima citadas. Antes na o lhes achava piada nenhuma e rapidamente as contrariava. Agora, e como li algures no outro dia, acho que debater isso eu sei que e pedante e como debater com algum defensor de que a terra e plana e que tem um fim em jeito de precip cio. Mas da gosto ouvir, a se rio que sim. E da gosto porque ? Porque, mesmo sem se aperceberem, essas pessoas da o raza o aos democratas que consideram a ditadura de Salazar uma das maiores trage dias na histo ria do nosso pa s. Enquanto que elas podem criticar o atual regime e divinizar o antigo e seus hero is, quando foi ao </p><p> contra rio na o se podia. Da gosto ver pessoas a falar a sua vontade porque foi Abril que lhes trouxe isso. Com o fim do Estado Novo e da Primavera que nunca o foi, democratizou-se o pa s e democratizou-se a Palavra, a liberdade de expressa o. Podemos falar todos, sem medo dos pides e dos outros bufos que punham em causa a integridade de vidas e de fam lias por causa de opinio es menos abunato rias ou, va , cr ticas. Da gosto porque a frase antigamente e que era bom, dita com a leviandade que e dita hoje, ha mais de 40 anos dava cadeia ao povo que a dissesse. Da gosto porque as mulheres que gostam de Salazar e do regime do respeitinho podem agora sair a rua sem os maridos ou sem a sua permissa o escrita. Da gosto porque a geraa o dos que se queixam da educaa o em Portugal pode hoje olhar para a geraa o deste jornal como exemplo que na o e preciso saber que o rio nasce aqui e a tabuada acaba ali para se ser um cidada o informado e consciente, seja qual for a sua cor pol tica. Informaa o, conscie ncia e liberdade de expressa o. Grandes vito rias da nossa democracia. Ate pode acontecer que elas na o sejam usadas abundosamente e com crite rio, mas esta o a a disposia o. E aproveitar, que isto so la vai com um Salazar em cada esquina. </p><p>DOCUMENTRIOS PARA VER </p><p>Este foi sem du vida um dos momentos histo rios mais retratados em Portugal pela se tima arte, mas na o so . Sobre o 25 de Abril, uma lista infinda vel de documenta rios e livros foram filmados e escritos. Imposs vel seria enuncia -los a todos, sintetiza mos aqueles que mais relevo e qualidade demonstraram, neste 40 aniversa rio da Revolua o dos Cravos. A RTP2 iniciou no dia 22 deste me s, a transmia o de um conjunto de seis documenta rios, sobre os diferentes olhares dos portugueses sobre a Revolua o. Todos eles ficara o disponibilizados pelo suporte RTPPlay no dia seguinte a sua exibia o. Uma excelente oportunidade para assistir a documenta rios nem sempre acess veis. SER E AGIR Durante muitos anos o meu avo foi so o meu avo , mas para as outras pessoas o meu avo foi especial. Ao crescer percebi que o Co co, como no s, os netos, o chamavam, fazia coisas importantes aos olhos dos adultos. Neste filme fujo dos t picos filmes em que os netos descobrem os avo s, eu ja descobri o meu ha muitos anos. A minha intena o e partilha -lo com os outros. Enquadrar o seu percurso num per odo histo rico e contribuir para a reflexa o sobre o 25 de Abril de 1974. Dar a conhecer, em conjunto com alguns entrevistados, o me dico, o pol tico e sobretudo o homem que foi Joa o Pedro Miller Guerra. O IMPRIO E OS ROMNTICOS ARMADOS Ao todo conta vamos com nove operacionais, nove soldados sem a recruta feita e dois oficiais generais para derrubar uma ditadura de quase meio se culo. Como enta o diz amos, basta um fo sforo para incendiar o mundo. Um documenta rio sobre aqueles que de uma forma ousada e radical ousaram afrontar a ditadura. Com </p><p>testemunhos de Camilo Morta gua, Ama ndio Silva, Isabel do Carmo, Carlos Antunes, Raimundo Narciso, Fernando Rosas, Ana Sofia Ferreira, Miguel Cardina, Jose Duarte de Jesus, Joana Morta gua e Mariana Morta gua. CAPITO DESCONHECIDO Conhecemos os rostos e as histo rias de Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia. Sabemos dos regressos de Ma rio Soares e A lvaro Cunhal. Vimos os cravos colocados nos canos das espingardas e o Largo do Carmo inundado de populares vitoriosos. Ouvimos e canta mos E Depois do Adeus e Gra ndola Vila Morena. Mas o 25 de Abril de 1974 comeou muito antes dos seus sons e imagens mais ico nicos. Comeou nos confins da Guine e nos matos de Angola e Moambique, nas cabeas e nos corao es de soldados e capita es, revoltados com as condio es em que combatiam numa guerra que na o podiam ganhar. PRIMEIRAS ENTRE IGUAIS As Primeiras Damas da Terceira Repu blica. O que te m em comum Manuela Ramalho Eanes, Maria Barroso, Maria Jose Ritta e Maria Cavaco Silva? Sa o as quatro Primeiras Damas da Terceira Repu blica cujos maridos foram eleitos democraticamente, mas sa o tambe m quatro mulheres ativas, ma es, profissionais, solida rias, que marcaram a pol tica e a sociedade portuguesas. Ver o mundo pelos seus olhos, compreender o seu percurso pessoal e profissional, perceber o que mudou nas suas vidas, como encararam o seu papel, como orientaram a fam lia, que recordao es guardam das grandes personalidades que conheceram e das situao es histo ricas de que foram testemunhas privilegiadas, e a proposta do documenta rio Primeiras entre Iguais. </p><p>Por Joo Miguel Silva </p><p>DR </p></li><li><p>POLTICA </p><p>O P I N I O d e R U I S O U SA </p><p>D e m o c ra c i a d o s m e u s 4 0 a n o s </p><p>Demo trata do almoo como tem sido ha bito nestas u ltimas semanas de Sol. Na o te m sido fa ceis os dias no bairro. As pessoas olham-no de esguelha sem o reconhecimento do contributo sauda vel que tem oferecido a sociedade. Todos sentem o mesmo mas ningue m o ousa dizer. Acusado de castraa o e de esconder um pequeno diabo dentro da pele desabafa sistematicamente com a sua melhor amiga. A sua mulher Cia. Isto na o pode continuar assim, exclama horas a fio como se o secretismo e a descria o da sua esposa fossem objeco es aos seus argumentos. Estou gra vida desvenda Cia em tom sussurrante. Demo ou melhor sera dizer, Pai, esboa na face uma expressa o de incredulidade ficando mais amarelo que um pato de loua da cozinha. Temos de mudar. </p><p>Temos de comprar isto, mudar aqui, mudar ali, alterar acola , ir ao me dico, sei la , dar-te o melhor. Tornar esse bebe no futuro de uma fam lia honrada e com valores definidos. Entusiasmado com o rebento que vira , Demo muda. Deixou de fumar, conversa com os vizinhos, faz amigos, uns mais que outros e certo, mas faz. Trabalha agora em prol de um sonho, um projecto que ira preservar ate ao fim das suas foras contra tudo e contra todos. Cia descansa todos os dias uma hora da parte da tarde na o descurando os seus textos melodrama ticos como diz Demo. A Ma e e escritora. Relata o dia a dia em cro nicas dia rias. Tem se queixado ao me dico que nos u ltimos meses tem tido pensamentos livres, fraternos e solida rios. Querendo extravasar a sua </p><p>vontade para la do papel rediz o que lhe vai na alma sem qualquer controlo. O clinico refere que e uma fase e que as hormonas criativas tambe m te m conscie ncia. Na sua ultima incursa o pela loja de brinquedos, Demo comprou um conjunto de capita ezinhos de chumbo com ve culos a preceito expectante que o seu filho seja um rapaz de barba rija como o pai. Soam as badaladas na Bas lica da Estrela.Rebentaram as mil a guas em Abril. Dia 25. 1974. Uma nova vida esta presente na naa o. Demo visita a sua amada, oferece-lhe as flores da praxe. Cravos. Vermelhos carnudos como os la bios e voz livre de Cia. Vamos ter de mudar de casa, Demo. Na o te preocupes, sei o sitio ideal, tem espao para brincar, para falarmos de coisas se rias, para </p><p>festejarmos o aniversa rio do nosso orgulho e sobretudo para valorizarmos algo concebido num momento ta o fundamental na nossa fam lia. Estou mesmo a ver, imagina Cia, estamos no s na brincadeira e de repente eu fao uns corninhos e a nossa filha vira-se para mim e com uma ternura deliciosa balbuceia: "Isso e muito fei...</p></li></ul>