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    1 ORIGEM E EVOLUO DOS QUADRINHOS

    1.1 Da Antiguidade Idade Mdia

    O mestre Will Eisner, criador de The Spirit (em portugus Spirit ou O Esprito) e pai da graphic

    novel (novela grfica ou romance grfico, em portugus), engloba a tira de jornal, a revista em quadrinhos

    e assemelhados sob o termo arte sequencial, que ele mesmo define como um veculo de expresso

    criativa, uma disciplina distinta, uma forma artstica e literria que lida com a disposio de figuras ou

    imagens e palavras para narrar uma histria ou dramatizar uma ideia. (EISNER, 1999) essencialmente

    a interao de palavra e imagem. (EISNER, 1999)

    Pode-se argumentar que em uma histria em quadrinhos, s vezes existe somente a imagem, sem

    texto, o que em princpio iria de encontro definio acima; o mesmo pode ser dito em relao a trechos

    somente com texto, sem imagem. Na verdade, existem (poucas) histrias em quadrinhos somente com

    imagens, sem uma linha de texto sequer, como, por exemplo o mang Gon, de Masashi Tanaka, publicado

    no Brasil pela Editora Conrad, a histria hilariante de um beb dinossauro genioso, brigo e dorminhoco

    (figuras 1 e 2). Maurcio de Sousa tambm cria histrias sem texto, encontradas reunidas em edies do

    Almanaque Historinhas sem Palavras Turma da Mnica, publicadas pela Panini.

    Figura 1 Capa de Gon Come e Dorme,

    Conrad Editora, 2003. Figura 2 Pgina interna de Gon Come e Dorme,

    Conrad Editora, 2003

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    Note-se no exemplo acima que no h texto nem tampouco onomatopeias. No entanto, ainda aqui

    se pode falar de arte sequencial, em vista da sequncia de imagens como forma de contar a histria.

    Esta forma de contar histrias com desenhos em sequncia est nos primrdios da histria em quadrinhos,

    ou seja, na pr-histria.

    Ao se traar a origem das histrias em quadrinhos, chega-se aos desenhos famosos das cavernas

    pr-histricas que foram a primeira histria em quadrinhos que j se fez. (GAIARSA, 1977, p. 115)

    Pinturas rupestres na caverna de Altamira, no norte da Espanha, em Lascaux, na Frana, e em diversos

    outros lugares do mundo, evidenciam a necessidade do homem, mesmo em tempos imemoriais, de

    retratar seu dia a dia em forma pictrica, ou, em outras palavras, de contar uma histria por meio de

    imagens. A abstrao deste homem pr-histrico estava ligada a animais, caadas, tarefas dirias e, mais

    tarde, a rituais. Alguns exemplos (figuras 3, 4, 5 e 6):

    Figura 3 Bisontes em Altamira, Espanha Paleoltico Superior

    Disponvel em: . Acesso em: 8 jan. 2010.

    Figura 4 Animais em Lascaux, Frana Paleoltico Superior

    Disponvel em: . Acesso em: 10 jan. 2010.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_altamirahttp://www.lascaux.culture.fr/index.php?fichier=02_01_00.xml

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    Figura 5 Cavalos e uma vaca em queda Lascaux, Frana Paleoltico Superior

    Disponvel em: . Acesso em: 10 jan. 2010.

    Figura 6 Homem morto, bisonte, rinoceronte e pssaro Lascaux, Frana Paleoltico Superior

    Especula-se que provavelmente o homem foi morto pelo rinoceronte.

    Disponvel em: . Acesso em: 10 jan. 2010.

    Note-se que, se os desenhos (como os das figuras 3, 4, 5 e 6) podem ser considerados, por um

    lado, como imagens estticas, fotografias, por assim dizer, por outro lado a maioria deles a reproduo

    de uma situao dinmica, de movimento. Em outras palavras, um dos momentos de uma sucesso de

    imagens, ou, para nossos propsitos aqui, um dos quadros de uma possvel histria em quadrinhos.

    A caminhada em direo s origens das histrias em quadrinhos, aps iniciada com a pintura

    rupestre, segue invariavelmente pelo antigo Egito e seus hierglifos. Gaiarsa (1977, p. 116) afirma: A

    primeira forma de escrita conhecida os hierglifos do Egito foi o segundo tipo de histria em

    quadrinhos que a humanidade conheceu, quando as coisas ainda eram mais importantes do que seus

    nomes.

    A mais antiga forma de escrita egpcia j surgira no incio do Antigo Imprio. O grego Clemente

    de Alexandria, que viveu no sculo III a.C., denominou-a hierglifos, literalmente entalhes sagrados.

    Essa escrita se encontra principalmente em monumentos, gravada em pedra. (STRIG, 1990) Havia

    ainda outros dois tipos de escrita no Egito antigo, a hiertica e a demtica. A partir da descoberta da

    pedra de Roseta (Rosette a forma francesa para Raschid, regio do Egito onde a pedra foi descoberta)

    pelos arquelogos de Napoleo em 1799 no Egito, foi possvel mais tarde desvendar o significado dos

    hierglifos, pois a pedra continha o mesmo texto em escrita demtica, em hierglifos antigos e em grego.

    http://www.lascaux.culture.fr/index.php?fichier=02_02_00_05.xmlhttp://www.lascaux.culture.fr/index.php?fichier=02_07_00.xml

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    O autor da faanha foi Jean Franois Champollion, em 1822. A pedra era um bloco de basalto negro,

    com cerca de 1 m de altura, 70 cm de largura e 30 cm de espessura. (STRIG, 1990) Veja-se a figura 7:

    Figura 7 Pedra de Roseta (STRIG, 1990)

    Para ilustrar a caracterstica pictrica e bastante dependente da realidade dos hierglifos, vejam-se

    alguns exemplos (figuras 8, 9, 10 e 11). Alguns hierglifos possuam um significado fontico. Outros

    correspondiam ao objeto que representavam (figura 8):

    Figura 8 Hierglifos Representao de objetos (STRIG, 1990)

    Outros sinais referiam-se a uma ao que tinha a ver com um dado objeto (figura 9):

    Figura 9 Hierglifos Ao (STRIG, 1990)

    Outros ainda representavam coisas que no podiam ser facilmente representadas, de maneira

    simblica (figura 10):

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    Figura 10 Hierglifos Representao simblica (STRIG, 1990)

    Por fim, alguns hierglifos, determinativos, eram sinais mudos utilizados para interpretao ou

    esclarecimento (figura 11):

    Figura 11 Hierglifos Interpretao (STRIG, 1990)

    Em si mesmos, os hierglifos j contavam uma histria, mas so os textos egpcios, seja em

    papiros, seja em vasos, seja em monumentos, que se assemelham bem de perto ao que poderamos chamar

    de histrias em quadrinhos rudimentares. Veja-se uma pgina do chamado Livro dos Mortos, com

    ilustraes e hierglifos (figura 12):

    Figura 12 Pgina do Livro dos Mortos (STRIG, 1990)

    Nota-se claramente na figura 12 uma sequncia de imagens relacionadas, com os hierglifos

    descrevendo, explicando ou servindo de base para que se entenda o que est acontecendo. Algumas outras

    imagens ilustram o carter de interao imagem/texto das pinturas egpcias (figuras 13 e 14).

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    Figura 13 Procisso Funerria de Mulheres Lamentosas, tumba de Ramose

    Disponvel em: . Acesso em: 11 jan. 2010.

    Figura 14 Pictograma encontrado na tumba de Ankmahor, mdico egpcio em Saqqara

    (RIBEIRO, 2009)

    Note-se a presena dos hierglifos nas duas imagens acima (figuras 13 e 14).

    Segundo Moya (1977, p. 28), neste tempo, os egpcios faziam charges ou cartoons colocando

    cabeas de animais em corpos de homens ou mulheres, para fazer stiras. Ainda consoante Moya (1997,

    p. 28):

    Os monumentos egpcios, trazidos pelo Imprio Romano (como a Coluna de Trajano), mostram, como numa histria em quadrinhos, tal fara construindo uma pirmide para

    seu tmulo, glorificando seu governo. Tal historieta comea l em cima e vem, enrolada

    qual um pergaminho, descendo at o p.

    Outras escritas pictogrficas e ideogrficas (chins, japons), tambm utilizavam (e ainda

    utilizam) imagens corriqueiras para falar sobre o mundo, como faziam os egpcios. O nome Japo, em

    japons, por exemplo, Nippon e significa "Terra do Sol Nascente". Originalmente, tratava-se de um

    desenho do sol, como o fazem as crianas: um crculo, com os riscos em torno representando os raios.

    Com o tempo ficou um sol quadrado e os riscos se reduziram a um somente, cortando-o. (MOYA, 1977,

    p. 30)

    http://www.portalartes.com.br/portal/historia_arte_mundo_antigo.asp

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    Na linha do tempo, as prximas histrias em quadrinhos estaro na Idade Mdia. Diversas

    ilustraes de livros sacros, quadros de pintores famosos como Bosch e Bruegel, trpticos (painis

    divididos em trs sees, encontrados principalmente em igrejas), vitrais e at mesmo pinturas de paredes

    e tetos de grandes igrejas, tudo conta uma histria, em geral de fundamentao religiosa, s vezes com

    textos, outras sem. Representaes da Paixo de Cristo e da Via Sacra normalmente consistiam de uma

    sucesso de imagens, muitas com legendas explicativas, e ainda so encontradas em igrejas do interior do

    Brasil. (MOYA, 1977, p. 32) Vejam-se as figuras 15, 16 e 17.

    Figura 15 Hieronymus Bosch O Jardim das Delcias Terrenas (trptico) 1504

    Disponvel em: . Acesso em: 11 jan. 2010.

    Figura 16 Pieter Bruegel Provrbios Holandeses 1559

    Disponvel em: . Acesso em: 11 jan. 2010.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Jardim_das_Del%C3%ADcias_Terrenashttp://en.wikipedia.org/wiki/Pieter_Bruegel_the_Elder

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    Nesta tela (figura 16), Bruegel ilustra dezenas de aforismos da poca, alguns ainda usados em

    idioma holands. Para um holands daquela poca, deveria ser divertido identificar, na montagem da

    pintura, todos os aforismos, j que no h palavras, mas sim a representao pictrica de provrbios ou

    dizeres.

    Figura 17 Michelangelo Teto da Capela Sistina, Vaticano, 1508-1512

    Disponvel em: . Acesso em: 11 jan. 2010.

    Neste afresco (figura 17), alm de diversas outras ilustraes, Michelangelo conta diversas

    passagens da Bblia, tais como Deus separando