1 ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO: História

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<ul><li><p>1 </p><p>ESTADO SOCIAL E DEMOCRTICO DE DIREITO: </p><p>Histria, direitos fundamentais e separao dos poderes </p><p>Siddharta Legale Ferreira </p><p>Sumrio: I. Aspectos gerais. II. Breve histrico no mundo: Do Estado liberal ao Estado social. III. Breve histrico no Brasil. IV. Os direitos fundamentais do Estado social e democrtico de direito. V. Separao dos poderes no Estado social e democrtico de direito. VI. Apontamentos finais. VII. Notas e referncias bibliogrficas. </p><p>I. Aspectos gerais </p><p>Entender o que significa o Estado democrtico e social de direito </p><p>pressupe que sejam apresentados os conceitos empregados na sua criao, em </p><p>especial, Estado de direito, Estado social e democracia. Deve ser enfatizado, porm, </p><p>que o Estado social e democrtico de direito no surge da mera superposio entre </p><p>essas trs noes. Pelo contrrio, enseja uma proposta inovadora e original, como </p><p>se ter oportunidade de abordar, aps explicar cada um dos seus elementos. </p><p>A luta pelo Estado de direito se espraiou pelo ocidente, especialmente no </p><p>contexto do Estado liberal de pases como Inglaterra, Estados Unidos, Frana e </p><p>Alemanha.1 No contexto ingls, o Estado de direito ou rule of law designa a busca </p><p>por um processo justo, pelo reconhecimento da supremacia da lei, do direito de </p><p>acesso aos tribunais e ao due process of law que acabaram sendo reconhecidas na </p><p>Magna Carta. No contexto norte-americano, consolidou-se as idias do reinado da </p><p>lei (reign law), da supremacia da Constituio e, depois, da garantia dos direitos </p><p>fundamentais. Na Frana, tambm se defendeu um tat legal, segundo o qual se </p><p>sublinha a supremacia no da Constituio, mas sim da lei fundamentada na </p><p>vontade popular que se exprime pelo parlamento2. Por fim, no contexto alemo, fala-</p></li><li><p>2 </p><p>se em Rechtstaat no qual prevalece a idia de um Estado mnimo, nos moldes de </p><p>um Estado liberal de direito. Nele, h uma separao entre Estado e sociedade, j </p><p>que a interveno do Estado representava um tendencial perigo liberdade e </p><p>propriedade. </p><p>Por essa razo, defende-se a reserva legal como pressuposto para </p><p>interveno ou restrio dos direitos dos cidados3. Os pressupostos materiais </p><p>subjacentes ao princpio so formados pelas idias de (i) juridicidade, (ii) a </p><p>supremacia da constituio, (iii) direitos fundamentais, com foco na liberdade 4, (iv) </p><p>separao dos poderes5 e (v) garantia de uma administrao local autnoma6. </p><p>Procura-se, dessa forma, instituir garantias para racionalizar a atividade do Estado7. </p><p>Durante o perodo de guerras mundiais e ps-guerra, a idia de Estado </p><p>de direito foi mobilizada para criticar os Estados totalitrios, em suas diversas </p><p>manifestaes: fascista, socialista e as ditaduras. Resultado: seu contedo comeou </p><p>a ser visto e revisto sob prismas novos. Por outro lado, as crticas sociais e </p><p>socialistas ao Estado de direito no permitem mais que ele seja mantido nos moldes </p><p>liberais. </p><p>Passa-se, ento, a falar em um Estado social de direito preocupado no </p><p>s com a segurana jurdica, mas tambm com os ideais de justia e igualdade, </p><p>mobilizados especialmente para garantia e efetivao dos direitos econmicos, </p><p>sociais e culturais. O Estado social de direito no deve ser confundido com o Estado </p><p>socialista8. Com o fim dos regimes fascistas e socialistas, percebeu-se que a histria </p><p>no chegou ao fim9. Houve apenas o prenncio de uma nova etapa. </p><p>Ao Estado social de direito, adicionou-se o elemento democrtico. Surgiu, </p><p>ento, o Estado social e democrtico de direito10. Por certo, no h consenso sobre </p><p>o significado da palavra democracia. Ela se reinventou e continua se reinventando. </p></li><li><p>3 </p><p>Da proposta de democracia pseudodireta de Atenas11, passando pelas propostas </p><p>de democracia representativa e participativa da modernidade12, at as mais recentes </p><p>discusses sobre a democracia deliberativa existem nuances que no sero objeto </p><p>de uma reflexo detida. </p><p> Ser necessrio restringir a exposio ao modelo cooperativo de </p><p>democracia deliberativa13. Em primeiro lugar, o debate mais atual. Em segundo, </p><p>ele possibilita harmonizar a tenso entre o Estado de direito, como limitao do </p><p>poder, e a soberania popular, como decorrncia da democracia. A proposta </p><p>reconhece o desacordo moral existente nas sociedades contemporneas. </p><p>Reconhece tambm que o Estado de direito, como garantia das liberdades, uma </p><p>pr-condio para que as pessoas possam deliberar livremente sobre a coisa </p><p>pblica e, dessa forma, existir uma democracia efetiva. Chama-se ateno, contudo, </p><p>para o fato de que as liberdades no bastam para assegurar a existncia de uma </p><p>deliberao pblica realmente justa. A igualdade material e algumas propostas </p><p>oriundas do Estado social constituem tambm pr-condies para deliberao </p><p>pblica. Afinal, um indivduo sem acesso educao ou a sade encontra-se em </p><p>desvantagem no complexo jogo de argumentos e contra-argumentos que envolve a </p><p>deliberao pblica. </p><p>A democracia no se restringe apenas participao no poder. tambm </p><p>controle dos governantes pelos governados.14 Em semelhante sentido, Jorge Reis </p><p>Novais explica com clareza que </p><p> Para que o qualificativo social aposto ao Estado no seja mero af retrico no basta a interveno organizada e sistemtica do Estado na economia, a procura do bem-estar, a institucionalizao dos grupos de interesses ou mesmo o reconhecimento jurdico e a consagrao constitucional dos direitos sociais; ainda imprescindvel a manuteno ou </p></li><li><p>4 </p><p>aprofundamento de um quadro poltico de via democrtica que reconhea ao cidado um estatuto de participante e no apenas, como diz Garcia-Pelayo, de mero recipiente da interveno social do Estado15. </p><p>Dessa combinao de idias, surge uma proposta original que ficou </p><p>conhecida como de Estado social e democrtico de direito16. Em linhas gerais, tal </p><p>modelo de Estado pode ser definido como o governo do povo, garantido por pr-</p><p>condies e limitado pelas leis e pelo direito, cuja finalidade principal concretizar os </p><p>interesses da coletividade que consideram obrigatoriamente mas no apenas as </p><p>polticas de redistribuio e reconhecimento, voltadas destacadamente </p><p>implementao dos direitos econmicos, sociais e culturais. </p><p>No intuito de detalhar um pouco melhor tal idia dividimos o trabalho em </p><p>quatro partes. A primeira trata da histria do Estado social no Mundo. A segunda, </p><p>no Brasil. A terceira expe brevemente o contedo dos direitos econmicos, sociais </p><p>e culturais que, sem dvida, representam a singularidade do Estado social em </p><p>relao s demais formas de estado. A quarta expe os traos distintivos de cada </p><p>um dos Poderes que compem o Estado social e democrtico de direito. </p><p>II. Breve histrico no mundo: Do Estado liberal ao Estado social </p><p>O Estado moderno, de feies absolutistas, passou a ser retratado, de um </p><p>lado, pelo Monarca como o inimigo da liberdade, favorecedor da nobreza, dono das </p><p>terras e, de outro, por uma sociedade composta de sditos, disposta num plano </p><p>inferior e subjugada s ordens daquele. Da condio de representantes da divindade </p><p>na terra, os reis passaram a meros mortais desgarrados de poderes metafsicos e </p><p>agarrados aos seus interesses polticos e econmicos. </p></li><li><p>5 </p><p>O crescimento do poder econmico da burguesia, juntamente, com a </p><p>ascenso dos movimentos sociais, foi o responsvel pelas crticas e aes que </p><p>conduziram s mudanas dos acontecimentos. Tericos como Adam Smith, Stuart </p><p>Mill17, John Locke18, Monstesquieu19, Rousseau20 ganharam destaque em suas </p><p>defesas pela propriedade, liberdade, igualdade formal e da conteno de poder. </p><p>Reinava o individualismo e a defesa de um absentesmo do Estado na esfera </p><p>econmica. Direitos fundamentais foram reduzidos s liberdades e ao bom governo </p><p>do Estado em que os poderes estivessem bem limitados. Bastava, nesse paradigma, </p><p>um Legislador que apenas obedecesse a Constituio, uma Administrao que to-</p><p>somente seguisse lei e o Judicirio que fosse o mero rbitro dos conflitos privados </p><p>ou a boca que pronunciava as palavras da lei. </p><p>Em linhas gerais, era essa a ideologia subjacente s Revolues liberais, </p><p>como a Revoluo Gloriosa, a Revoluo Francesa, a Independncia das 13 </p><p>colnias americanas, e uma srie de documentos produzidos como a Declarao do </p><p>Estado de Virgnia em 1776, a posterior Constituio de 1787 e, por fim, o Bill of </p><p>Rights de 1787. Sob o manto da liberdade e separao de poderes, escondia-se que </p><p>o Estado Liberal acabou se prestando a atender os interesses da classe social </p><p>emergente, a burguesia. Critica-se que, deflagrada as revolues, o quarto </p><p>estado21, os mais pobres da Revoluo Francesa, acabaram esquecidos. O </p><p>proletariado acabou subjugado a condies desumanas das grandes cidades como </p><p>Paris e Londres, desde as pssimas condies de trabalho at as moradias </p><p>degradantes desprovidas de um mnimo de saneamento bsico22. </p><p>Diante das terrveis condies, emergiram os movimentos socialistas do </p><p>sculo XIX e incio do sculo XX. A ideologia liberal passou a ser questionada. </p><p>Autores como Charles Fourier, Robert Owen e Luis Blanc, Marx e Engels23 </p></li><li><p>6 </p><p>destacaram-se, seja por seu socialismo utpico, seja pelo socialismo cientfico.24 A </p><p>ordem do dia passou a ser a crtica ao individualismo exacerbado, mais valia, </p><p>explorao do capital sobre o trabalho e o destaque a luta de classes. Conceitos </p><p>esses que desempenharam um papel fundamental para o nascimento dos direitos </p><p>do trabalhador, da igualdade material e da interveno Estatal na economia. Os </p><p>conceitos se tornaram reivindicaes. As reivindicaes, lutas. As lutas, Revolues, </p><p>como a Mexicana, a Russa e as diversas que se espalharam pelo mundo. As </p><p>Revolues deram lugar ao Estado socialista e, mais tarde, tambm ao Estado </p><p>social e democrtico. </p><p>A influncia ideolgica socialista que, em sua base, repudia os privilgios de </p><p>classe e a injustia da ordem liberal, no caminho para a construo de uma </p><p>sociedade igualitria25, marcou o Estado social, atingindo at mesmo Estados </p><p>conhecidamente capitalistas, tal como aconteceu com os EUA no New Deal. </p><p>Existem, porm, inmeros pontos divergentes entre o Socialismo e o Estado </p><p>Social. Em Marx e nas propostas socialistas, o caminho para alcanar a sociedade </p><p>sem classes a Revoluo, com tomada do poder pelos trabalhadores. A mudana </p><p>no vem pela via pacfica, tampouco pela deliberao pblica da necessidade de </p><p>transformaes democrticas26. O Estado Socialista deveria deter, por isso, o </p><p>controle dos meios de produo, abolindo a propriedade privada dos meios de </p><p>produo. O indivduo cederia ao coletivo. Estava-se diante da Ditadura do </p><p>Proletariado27. </p><p>Assim como Marx e Engels, Lnin, afirma que a ditadura do proletariado s </p><p>aconteceria por meio da revoluo: O Estado um fora especial de represso. </p><p>Esta notvel e profunda definio de Engels de uma absoluta clareza. Dela resulta </p><p>que essa fora especial de represso do proletariado pela burguesia, de milhes de </p></li><li><p>7 </p><p>trabalhadores por um punhado de ricos, deve ser substituda por uma fora </p><p>especial de represso da burguesia pelo proletariado (a ditadura do proletariado); </p><p>Este (o estado burgus) s pode, em geral, ceder lugar ao Estado proletrio por </p><p>meio da revoluo violenta28. </p><p>Alm disso, o Estado socialista (marxista) no se coaduna com o princpio </p><p>democrtico. A democracia era mais uma artimanha burguesa para manter a classe </p><p>operria subjugada. O sufrgio seria incapaz de impor, verdadeiramente, os desejos </p><p>da classe operria29. </p><p>A Rssia foi o grande palco do socialismo. Aps muita luta para derrubar o </p><p>governo, os socialistas, liderados por Lnin30, tomaram o poder. Muitos Estados </p><p>liberais, com medo da onda socialista e comunista, passaram a resistir menos s </p><p>propostas do Estado Social. Nessa linha, Paulo Bonavides explica que O Estado </p><p>social representa efetivamente uma transformao superestrutural por que passou o </p><p>antigo Estado liberal31. </p><p>O Estado social , de fato, um modelo que se mostrou em vrios regimes, </p><p>cujas principais propostas podem ser exemplificadas em trs documentos histricos. </p><p>O primeiro deles foi a declarao dos Direitos do Povo e do Trabalhador, na </p><p>Revoluo Russa de 1917. Os outros dois foram a Constituio Mexicana de 1917, </p><p>resultado da Revoluo Mexicana, e a Constituio de Weimar de 1919, resultado </p><p>da Alemanha arrasada pela primeira guerra mundial (e base para a sustentao </p><p>futura do regime nazista). Os EUA no optaram por um novo documento, mas, </p><p>quando a questo social se intensificou com a crise da dcada de 30, novas </p><p>interpretaes de sua Constituio liberal deram rumos mais intervencionistas ao </p><p>Estado. </p></li><li><p>8 </p><p>Destacou-se na fundamentao do Estado social a contribuio do </p><p>economista John Maynard Keynes. O autor defendia um Estado intervencionista, </p><p>que no deveria controlar todos os meios de produo, mas apenas interferir com </p><p>objetivo de garantir o pleno emprego. Confira-se em suas prprias palavras: </p><p>Embora essa teoria indique ser de importncia vital o estabelecimento de certos controles sobre atividades que hoje so confiadas, em sua maioria, iniciativa privada, h muitas outras reas que permanecem sem interferncia. O Estado dever exercer uma influncia orientadora sobre a propenso a consumir, em parte atravs de seu sistema de tributao, em parte por meio da fixao da taxa de juros e, em parte, talvez, recorrendo a outras medidas. Por outro lado, parece improvvel que a influncia da poltica bancria sobre a taxa de juros seja suficiente por si mesma para determinar um volume de investimento timo. Eu entendo, portanto, que socializao algo ampla dos investimentos ser o nico meio para assegurar uma situao aproximada do pleno emprego, embora isso no implique a necessidade de excluir ajustes e frmulas de toda a espcie que permitam ao Estado cooperar com a iniciativa privada. Mas, fora disso, no se v razo evidente que justifique um Socialismo do Estado abrangendo a maior parte da vida econmica da nao. No a propriedade dos meios de produo que convm ao Estado assumir. Se o Estado for capaz de determinar o montante agregado dos recursos destinados a aumentar esses meios e a taxa bsica de remunerao aos seus detentores, ter realizado o que lhe compete.32 </p><p>A Revoluo mexicana resultou da contestao ao governo tanto por parte </p><p>dos lderes liberais, entre eles Francisco Madero, quanto dos lderes camponeses </p><p>Emiliano Zapata, Pancho Villa e Pascal Orozco. A convergncia de interesses recaia </p><p>na busca pelo fim do autoritarismo. Travados muitos conflitos, Diaz foi deposto em </p><p>1911 e os liberais assumiram o poder. As demandas da parte rural e pobre, que </p><p>lutara na Revoluo, no foram completamente atendidas. A reforma agrria, os </p><p>direitos trabalhistas, a nacionalizao das empresas, entre outras, deram lugar aos </p><p>anseios da nova burguesia, nos projetos governamentais33. </p></li><li><p>9 </p><p>Resultado: ocorreu a separao entre constitucionalistas e convencionistas. </p><p>Os primeiros, liberais, primavam pela reforma da Constituio de 1857, enquanto os </p><p>convencionistas pela modificao total, defendendo a adoo de uma nova </p><p>Constituio. Zapata simpatizou com a ltima posio, razo pela qual Venustiano </p><p>Carranza, Presidente do perodo, acabou tomando um caminho mais curto: mandou </p><p>assassinar Zapata e promulgou a Constituio mexicana de 1917. </p><p>Desenhada sob o contexto reivindicaes da Revoluo Mexicana, emergiu a </p><p>primeira Constituio Social do...</p></li></ul>