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pegadas

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  • CADERNOSAA

    Cadernos de Arte e Antropologia, n 1/2012, pag. 38-52

    pegAdAs de sAci. ensAio etno-RApsdico A quAtRo mos sobRe As RepResentAes de um mito

    Jorge Gonalves de Oliveira Jnior1Universidade de So Paulo, Dep. de Antropologia

    Thiago VazArtista Plstico, Grafiteiro, Marcador de Aparies do Saci Urbano

    As diversas transformaes simblicas pelas quais passou o Saci, uma das figuras mticas mais difundidas no territrio brasileiro, atravs do tempo e do espao, motivam este ensaio a quatro mos, que o resultado de conversas entre o antroplogo, poeta e escritor Jorge Gonalves de Oliveira Jnior e o artista plstico e grafiteiro Thiago Vaz sobre os registros das aparies do Saci Urbano pela regio metropolitana de So Paulo. Inspirada na noo de rapsdia literria de Mario de Andrade, a forma do texto busca testar as fronteiras entre arte e anlise cientfica: uma etno-rapsdia, que se configura como uma colcha de retalhos de diversos gneros e narradores, na expectativa de colorir o monocromtico ponto de vista da monografia e desafiar ao leitor para que ele produza as suas prprias anlises a partir de sua leitura e impresses.Palavras-chave: Saci, etno-rapsdia, gnero literrio, grafite, mito.

    1 Realiza iniciao cientfica sob orientao de Rose Satiko G. Hikiji, professora do Dep. de Antropologia da USP.

  • pag. 10 CADERNOS DE ARTE E ANTROPOLOGIA

    Deus muito srio, muito arrogante, muito mando. A gente tem que fazer tudo o que ele manda, tem que fazer tudo que ele quer.Ento precisa de um derivativo mais amvel, mais benigno, e o Saci esse derivativo.Todos esses duendes menores, esses duendes que no tem o que fazer e ficam por a fazendo arte, eles servem pra deixar a vida assim um encantatrio. A vida tem que ser encantadaQuem no tem imaginao pra sonhar coisas Ah sonha com o Saci!Ento um mito do encanto.2

    bom sempre lembrar que isto no um cachimbo (Magritte 1929). O grafite tem um carter urbano, intervencionista, ligeiro e efmero. Por isso o artista-grafiteiro e autor das fotografias que seguem procurou mostrar o grafite na paisagem e no o grafite em si ou o grafite e a paisagem; apenas dessa forma pode-se registrar uma sensao aproximada do encontro do Saci Urbano de maneira sbita, no meio de um trajeto cotidiano (e aqui, no meio da leitura).

    O Saci Perer uma das figuras mitolgicas mais difundidas no territrio brasileiro e h diversas verses de vrios estudiosos que buscaram encontrar sua genealogia3. Ele pode ter nascido de um mito indgena que depois foi embaralhado com elementos africanos e europeus, h quem o compare ao Matintaperera4, ou o Saci-Ave, pssaro popularmente considerado de mau agouro e cujo canto estridente no permite identificar sua exata localizao; mas h tambm quem o identifique com o Fradinho da Mo Furada, lenda portuguesa, espcie de duende familiar, de gorro vermelho e que rouba a brasa do fogo no furo que trs em uma das mos caracterstica presente em alguns relatos sobre o Saci. Sua imagem j foi mais diversa e os relatos mais antigos o identificavam como um pequeno demnio que aproveitou uma festa no inferno e fugiu para a Terra, dessa forma, ele traria chifres, um cheiro forte de enxofre e suas aes, apesar de nunca levarem ningum morte, trariam muito azar para as pessoas envolvidas. Atualmente, os elementos demonacos foram eliminados, principalmente graas obra infanto-juvenil de Lobato (2005) que, devido ao grande sucesso, incluindo adaptaes para a televiso, contribuiu para a padronizao da figura do Saci como o negrinho de uma perna s, brincalho, mas sem maldade, cujos poderes emanam de seu gorro vermelho e que se locomove como um rodamoinho. Da mesma forma, alm da origem demonaca j citada, duas outras verses, menos ttricas, contriburam para a popularizao do mito: em uma delas o Saci um menino escravo que preferiu cortar uma perna para se ver livre dos grilhes; na outra, como entidade mgica, os

    2 Depoimento de Dona Ruth Guimares Botelho, escritora, poetisa e caipira de Cachoeira Paulista (Andrade 2010).3 A descrio que se segue resume narrativas colhidas e descritas em Benedito (2007), Cascudo (1999), Lobato (1998) e Queirs (1987).4 Tapera naevia, ave encontrada do Mxico Argentina; seu canto assemelha-se sonoramente palavra Saci ou Sem Fim, como ela tambm popularmente conhecida.

  • Pegadas de Saci pag. 11

    Sacis nasceriam, em dias de vendaval, de dentro de um gomo de taquaruu5, em uma ninhada de sete para viver depois setenta sete anos e morrer transformando em urup.6

    Mesmo com tudo isso, as variaes desse mito continuam se manifestando e se multiplicando.

    Avenida Perimetral, Municpio de Santo Andr, SP.7

    Eu subverto o velho adgio e afirmo: acredito em bruxas, porque elas no existem. Porque existir, no sentido fsico, cientfico, ctico, nem mesmo os prprios fsicos sabem direito o que . A matria feita de pequenas partculas? De estalos de energia? De cordas vibratrias? De membranas sotopostas? Qual a ltima teoria?

    Eu fico com o meu av, homem religioso, srio, sisudo, que me relatou sua experincia ao avistar um lobisomem. Ele no alto de seus 94 anos, e eu na minha soberba dos 16 tive a coragem de sorrir do seu relato. Pois ele olhou nos meus olhos e disse: Isso srio! No se ria! Eu no falo por enigmas! Vi o bicho assim como te vejo agora! E eu fui me arrepiando de um medo inexplicvel, coisa que no sentia desde a infncia. E seus olhos cavados de av cresceram, se avolumaram, se impuseram e me soterraram, me deixando com o sorriso amarelo de neto paulista que pensa que sabe tudo e no sabe nada. Eu que acredito em tomos que nunca vi, como posso desacreditar do lobisomem que meu av viu e juramentou? Lobisomens no existem? Mas eu tenho certeza de que V Severo viu um.

    Era um bicho alto e majestoso, com pelos brancos luminosos. E no era de matria que se pegasse, era feito de luz do luar. Bem no caminho da casa para o stio, em lugar ermo, habitado

    5 Chusquea gaudichaudii, espcie de bambu, tambm conhecido como bambu gigante.6 Polyporus sanguineus, espcie de cogumelo, tambm conhecido como orelha de pau.7 Todas as fotos deste artigo foram produzidas pelo artista Thiago Vaz (Vaz 2011) e esto disponveis em seu stio na internet (http://eosaciurbano.org/) protegidas por uma licena de uso no comercial creative commons.

  • pag. 12 CADERNOS DE ARTE E ANTROPOLOGIA

    por visagens. Mas meu av no retardou nem acelerou o passo. Colocou seu corao no colo da virgem, rezou o credo e gritou: Quem pode mais que Nosso Senhor Jesus Cristo? Por baixo, por rente ou por riba da terra? Pois o licantropo, que estava bem no meio do seu caminho, estacou, escancarou os dentes com gestos sincopados e desengonados, se curvou at o tamanho de um cachorrinho branco de madame, debandou estrada afora e nunca mais foi visto.

    Boa histria essa do meu av. Melhor se contada ao redor de uma fogueira, em sexta feira de lua cheia, com vento morno soprando no mato por trs de ns. Assim escrito, mesmo com adjetivos, perde a sustana.

    Mas eu no quero contar essa histria que contei. Quero falar de outro duende. Quero falar de Saci.8

    Muro da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

    Thiago Vaz no se considera o autor do projeto Saci Urbano, apesar de s-lo, mas um marcador de aparies, certa vez Jorge de Barros sugeriu a realizao de uma interveno e a resposta dele, via e-mail, foi:

    Vou pautar essa marcao, j que voc viu uma apario, cabe a mim fazer o trabalho sujo (risos).9

    H uma brincadeira entre os artistas e intelectuais divulgadores e defensores do Saci, uma atitude zombeteira, sacisstica, de tratar o mito como real, surpreendendo assim os desavisados que ainda no conhecem as regras desse jogo. Trata-se de um esforo de originalidade, pois o caipira, de cujo universo o Saci realmente faz parte, utilizava o mito para entender, explicar

    8 Excerto do conto De Lobisomens e Sacis (Barros 2010).9 E-mail de 20 de outubro de 2011.

  • Pegadas de Saci pag. 13

    e criar relaes no seu prprio mundo, conforme ensina o professor Levi Strauss (2005). Logo, conscientemente ou no, os sacizeiros, na necessidade de resgatar legitimamente e anticapitalisticamente o Saci, ou seja, em sua essncia e no apenas aparncia, revestem seu discurso na frgil afirmao da sua existncia. Isso fcil de observar no nome das principais associaes culturais criadas para preservar o mito: a SOSACI (Sociedade dos Observadores de Saci) e a ANCS (Associao Nacional dos Criadores de Saci) grifos meus.

    Logo, resgatar apenas a figura e a simbologia no suficiente, o verdadeiro Saci enquanto entidade cosmolgica, precisa ser completamente resgatado, necessrio que ele receba crena. Mas h limites para esse resgate se que possvel resgatar um mito a modernidade e seu processo de racionalizao e secularizao do mundo pode ser um caminho sem volta, da que tal ato se reveste de boa inteno, mas no pode se configurar plenamente. To logo o interlocutor entende o jogo, logo se esfora em expressar: Ah, claro, tambm acredito no Saci, e mesmo aderindo ao discurso, continuam ambos acreditando, apenas entre aspas.

    Municpio de Santo Andre, Av. Santos Dumont.

    Eu comecei com esse trabalho, no assinando, ou seja, eu queria estar annimo, eu s queria estar margem pra ver a reao do pblico. E at perigoso porque tem gente que chega em alguns lugares e fala P, voc que faz o Saci Urbano!. Comecei fazendo noite, ento ningum sabia quem que fazia o Saci.

    Eu estava fazendo sem permisso mesmo, ou seja, interveno, mas muitos desses pontos eram em patrimnios pblicos. E o que que isso patrimnio pblico? um patrimnio pblico! A gente paga, tem o direito de intervir tambm. Eu penso assim, a gente tem o direito de intervir porque t pagando. E se a populao t gostando, ento no mal algum. E o pessoal comenta, no site, muitos no sabem quem que faz mesmo, no blog, e eu sinto que o pessoal

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