03 - artigo cientifico

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    DOS LIVROS PARA AS TELAS DE TVS A TRANSPOSIO DA LINGUAGEM

    LITERRIA DAS CRNICAS DO GELO E FOGO NO ROTEIRO ADAPTADO DA

    SRIE GAME OF THRONES

    Mlker Queiros da Silva, acadmico.

    Rafael Jose Bona, professor orientador.

    Resumo

    So muitas as adaptaes audiovisuais disponveis. Transformar um livro em uma minissrie

    televisiva ou um longa-metragem algo que vemos acontecer todos os dias. Na srie Game of

    Thrones(2011), adaptao produzida pela rede mundial de tv HBO, a histria antes disponvel

    apenas em livros, agora pode ser expectada tambm na tela da televiso. Com o objetivo de

    entender a relao que h na linguagem utilizada no seriado, buscou-se fazer uma anlise da

    linguagem usada na adaptao audiovisual do primeiro livro das crnicas do gelo e fogo para

    a primeira temporada do seriado de TV Game of Thrones. Para tal, foi feita uma pesquisa

    exploratria descritiva e uma anlise do livro e dos episdios, numa amostragem

    probabilstica intencional, analisando e interpretando o material coletado de acordo com os

    autores descritos na fundamentao terica. Aps as anlises, pde-se identificar os pontos

    identificar todos os pontos do roteiro mencionados por Comparato (2009). Tambm foi

    possvel entender a relao entre o texto original e o roteiro adaptado e que na adaptao a

    fidelidade ao original no obrigatrio, j que mudanas so essenciais para se fazer a

    transio de uma mdia para outra.

    Palavras-chaves: Linguagem literria, roteiro adaptado, crnicas de gelo e fogo, game of

    thrones.

    Introduo

    As adaptaes existem h muito tempo, e so famosas por trabalharem com algo que

    j possui pblico. So vrios os exemplos de obras literrias que serviram de inspirao para

    diretores cinematogrficos.

    Na televiso tambm temos muitos exemplos de adaptaes que fizeram histrias, um

    exemplo de produo audiovisual para televiso no Brasil que fez muito sucesso, foi a

    minissrie Capit (2008), que baseados no romance de Machado de Assis, Dom Casmurro

    (1899), trouxe para o audiovisual toda a magia do livro, adaptando sua linguagem literria

    para a linguagem audiovisual das telenovelas.

    Muito antes de os livros existirem como objetos fsicos, os contadores de histrias

    transmitiam dados essenciais s sucessivas geraes em forma de narrativa (EPSTEIN,

    2002). Baseado nisso, possvel afirmar que o processo narrativo j existia desde os

    primrdios da vida humana, mesmo antes do surgimento da escrita. O homem em sua

    necessidade de exteriorizar e aludir histrias de seu universo, fictcio ou no, fazia desta

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    prtica ancestral em forma de oralidade que mais tarde contribuiu na construo do universo

    literrio presente na histria da humanidade.

    Lanado em abril de 2011 pela rede de televiso a cabo norte-americana HBO, o

    seriado Game of Thrones traz em seu enredo, estruturado de maneira multiplots (diversos

    enredos que correm paralelamente), uma complexa trama ambientada em um universo

    ficcional que mistura elementos de histrias de capa e espada com temas sobrenaturais e

    fico histrica medieval.

    O seriado baseado na saga As Crnicas de Gelo e Fogo, escritos por George R. R.

    Martin, tambm produtor do seriado televisivo. O autor citado vendeu os direitos para a

    emissora de TV paga HBO, que por meio da adaptao audiovisual transformou a histria, j

    aclamada pelos leitores h quase 20 anos, em uma superproduo televisiva e to aclamada

    quanto.

    E no contexto da primeira temporada de Game of Thrones e no primeiro livro da saga

    As Crnicas de Gelo e Fogo que este trabalho se insere, na busca de identificar a relao da

    linguagem literria na transposio para a linguagem audiovisual utilizada na srie produzida

    e apresentada pela rede de TV fechada HBO.

    Adaptaes

    Uma transcrio de um cdigo1 literrio ficcional para a linguagem audiovisual no se

    d de forma simples. necessrio fazer uma adaptao da linguagem.

    Comparato (1983, p. 206) diz que adaptao uma transcrio da linguagem:

    mudamos o suporte lingustico usado para contar uma estria. J Maciel (2003, p.142) d a

    origem da palavra: A palavra transcrio foi primeiramente criada por Haroldo de Campos

    para designar o processo de traduo criativa de textos poticos tradues que eram

    recriaes do original.

    Adaptar uma obra literria para outros meios como cinema e televiso uma realidade

    entre os roteiristas. Seger (2007) diz que tais adaptaes tem como origem contos, peas de

    teatro, romances. Tudo isso possvel, embora passem por processos diferentes.

    Por sua prpria natureza, a adaptao um processo de transio de uma mdia para

    outra. Assim, o material original sempre oferecer resistncia adaptao, como se

    dissesse: Me aceite do jeito que sou. Porm, a adaptao implica mudana. Implica

    um processo que tudo seja repensado, reconhecido. (SEGER, 2007, p. 17)

    1 Cdigo: conjunto de todos os elementos lingusticos vigentes numa comunidade e postos disposio dos indivduos para servi-lhes de

    meios de comunicao; lngua. (Petter, 2002)

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    Muito embora essas adaptaes estejam em variados meios, e esses meios preencham

    parte do espao social ocupado pelo anterior, no caso o romance, vale dizer que a relao

    entre eles deve ser vista mais pela tica da complementaridade que da substituio. Silva

    (2002) afirma que os meios de comunicao ajudam a formar um conjunto de informao e

    formao, deste modo, cada mecanismo no suplanta e sim complementa o outro. Segundo

    Field (1995, p.174) diz que adaptar um livro para um roteiro significa mudar um para o outro,

    e no superpor um ao outro.

    comum verificar uma aparente superficialidade do produto audiovisual em relao

    obra literria, que Rey (1989, p.59) explica que porque a cmera no tem a sutileza das

    palavras. Ela capaz de criar, mas sua profundidade no vai alm da pele. Ela pode revelar o

    sentido de uma obra literria, suas intenes, mas no o recheio nem a beleza ou a

    singularidade do estilo.

    O que mostrado na tela real para o espectador; os atores so as personagens, os

    lugares e fatos so to reais quanto o cineasta consegue faz-los parecerem reais. J o leitor

    evoca imagens de pessoas, lugares e fatos que ele prprio tem em mente e encanta-se com os

    apartes e reflexes do autor. Essa invocao imaginosa e esse vagar sem pressa pela mente de

    quem conta a histria so impossveis num filme, porque, necessariamente, o filme tem de

    expor manifestaes visuais, enquanto o livro usa a imaginao do autor. (HAYWARD, 2000,

    p.38).

    Musburger (2008, p.206) escreve que criar, eliminar, combinar, alterar personagens e

    at acrescentar, so algumas modificaes que podem ser feitas para, por exemplo, aprimorar

    a estrutura dramtica e narrativa da histria, criando assim uma adaptao de um roteiro.

    Para Rey (1989, p. 60) como o livro no foi criado para o audiovisual, ele no atende as

    necessidades que o meio exige para se fazer um bom filme, como ritmo e linguagem, por

    exemplo. No copie simplesmente um romance para o roteiro; faa-o visual, uma historia

    contada em imagens. (FIELD, 2001, p. 176)

    Seger (2007, p.25) defende que s existe um tipo de adaptao impossvel: aquela na

    qual o escritor e o produtor no tenham licena criativa 2, pois mudanas so absolutamente

    essenciais para fazer uma transio de uma mdia para outra..

    Linda Hutcheon (2011) defende que as adaptaes, de qualquer espcie, esto em todo

    lugar nos dias atuais. E ainda faz um importante debate sobre a prtica de classificar as

    adaptaes como secundrias, como trabalhos derivados e, ao tentar entender a constante

    2 Licena criativa ou licena literria: a necessidade do autor de modificar elementos da histria, seja retirando, condensando ou

    acrescentando elementos, na busca de um roteiro mais com cara de audiovisual.

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    critica de que, no cinema adaptado da literatura, as obras secundrias nunca chegam

    consistncia artstica da obra literria.

    Mas afinal: o que uma adaptao? Nas palavras de Hutcheon (2011), a adaptao

    pode ser estudada em trs vertentes:

    1. ENTIDADE OU PRODUTO 2. PROCESSO DE

    RECRIAO

    3. PROCESSO DE RECEPO

    Entenderamos a adaptao como

    transposio particular de um

    trabalho ou trabalhos, uma espcie

    de transcodificao. Pode-se ento

    contar uma histria sob um ponto

    de vista diferente ou ainda expor

    (transpor) uma nova interpretao.

    Processo de reinterpretao e

    recriao, processo esse no qual

    primeiramente apropria-se do texto

    fonte para depois recri-lo, comum

    na adaptao de obras literrias

    cannicas para pblicos de faixa

    etria jovem.

    Processo de recepo entende-se a

    adaptao como uma forma de

    intertextualidade, o texto baseia-se

    em outros textos para criar-se

    existindo de modo intertextual com

    os primeiros.

    Tabela 1 - Tipos de adaptao na viso de Linda Hutcheon.

    Para Hutcheon (2011), adaptao, pode-se considerar a converso do real pelo

    ficcional, quando dramatizamos ou narramos acontecimentos histricos ou biografias

    pessoais. Afirma ainda que adaptar no significa fidelidade, e fidelidade no deve ser um

    parmetro de julgamento ou foco de anlise para as obras adaptadas. A autora ressalta que por

    um longo tempo, esse foi um critrio comum ao se falar