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    Revista Historiar, ano I, n. I (2009)

    GUERRA DO PARAGUAI: OUTRAS HISTRIAS.

    Maria Regina Santos de Souza1

    RESUMO: Este artigo tem o propsito de mostrar como a forma literria mostra as convulses sociais trazidas pelos alistamentos arbitrrios de pessoas do estado do Cear para a "Guerra que o Paraguai", bem como ressaltar os aspectos scio-econmicos que marcaram a Provncia do Estado do Cear neste perodo. PALAVRAS-CHAVES: Guerra, Cear, sociedade, violncia ABSTRACT: This article has the purpose to show in literary way which the social upheavals brought by the arbitrary conscription of people from the state of Cear for war it Paraguay, as well as standing out the partner-economic aspects that regulated the province pertaining to the state of Cear. KEY WORDS: War, Cear, society, violence

    Ano do senhor de 1867. No tempo nublado de Fortaleza, natureza considerada

    estranha, acontecia uma revolta de presos na delegacia da cidade. Tratava-se de uma

    rebelio de recrutas, homens pegos a fora ou no lao, como se dizia na poca, para a

    lida militar. Os resultados finais da rebeldia foram quebradeira do velho

    estabelecimento (uma casa velha sem segurana adequada, a quem o governo provincial

    chamava de cadeia pblica) e a fuga de quarenta e cinco sujeitos potencialmente

    recrutveis.

    Na viso popular, a tal cadeia era chamada de oficina de satans, por ter fama

    de no recuperar ningum e oferecer uma vivncia inumana aos reclusos. O lder da

    rebelio chamava-se Bernardo Co, homem a quem os piores infortnios estavam

    espreita. No se sabia se seu segundo nome era uma alcunha ou sobrenome. O fato era

    que no Rol dos Culpados estava registrado Co.

    Antes do motim, Bernardo tinha sido condenado pelos crimes de Resistncia a

    Autoridades, Injria e Ferimentos Leves. Acrescentaram-lhe os delitos de insurreio,

    1 Graduao e Mestrado em Histria Social pela Universidade Federal do Cear (UFC). Atualmente doutorando do Programa de Ps-Graduao em Histria Social da Universidade Federal de Pernambuco de Pernambuco (UFPE) sob a orientao do Prof Dr. Marc Jay Hoffnagel. Bolsista CNPQ.

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    destruio de rgo pblico e facilitao de fuga. Aos olhos da lei, um transgressor que

    merecia cuidado especial...

    Mas, quais crimes teriam cometido os fugitivos? E Bernardo, por que no

    conseguira fazer parte dos procurados? Um crime a mais talvez no fizesse tanta

    diferena na sua desgraada vida. Na fuga ele escorregou nos detritos humanos comuns

    na Cadeia de Fortaleza2. Caiu e foi dominado por um policial que lhe apontava a

    carabina. Ficou imvel... No queria morrer!

    Na cidade no se comentava outra coisa seno a fuga em massa liderada pelo tal

    Co. Nos sarais, o medo fazia com que os homens de letras comentassem sobre a

    desordem na capital. Como podemos nos divertir agora com tantos facnoras vagando

    por a? Comentava um pattico juiz de direito.

    Facnora? Com excees de uns poucos assassinos e alguns larpios, a maior

    parte dos fugitivos era composta por sujeitos cujos crimes eram a pobreza e a falta de

    proteo de um poderoso local3. Sem o amparo de um grande, o homem comum do

    serto torna-se presa fcil para o recrutamento, palavra que arrepiava, mas tambm

    armava o sertanejo. Tempos difceis. Se no for falar demais, a escapada deu-se em

    plena a Guerra do Paraguai, especificamente no terceiro ano de combate, quando o

    Decreto dos Voluntrios de n 3.371 no despertava interesse em muitos. 4

    O decreto dos Voluntrios da Ptria oferecia para aqueles que quisessem

    participar do conflito terra, dinheiro, emprego pblico, soldos atrativos para os soldados

    e penses para os parentes destes em caso de morte, entre outros benefcios. Por que

    faltou interesse por parte da populao masculina?

    A falha no fora apenas da lei. Certo que a guerra demonstrou-se morosa

    demais, mas o desamparo (por parte do governo imperial) em relao soldados

    2 Sobre as condies sanitrias da Cadeia de Fortaleza Cf:MARIZ, Silviana Fernandes. Oficina de Satans: a Cadeia Pblica de Fortaleza (1850-1889). Fortaleza, 2004 (Dissertao de mestrado UFC/ Cear). 3 Para escrever sobre os pobres e livres cearenses do sculo XIX busquei inspirao em GEREMEK, Bronislaw. Os Filhos de Caim: vagabundos e miserveis na Literatura Europia (1400-1700). (Traduo Henryk Siewierski ). So Paulo: Cia das Letras, 1995. 4 Em relao as vantagens oferecidas pelo Decreto do Voluntrios da Ptria n 3.371 conferir: COSTA, Wilma Perez. A Espada de Dmocles: o Exrcito, a Guerra do Paraguai e crise do Imprio. So Paulo: HUCITEC, Unicamp, 1996. P.225-229.

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    retornados ou recambiados fazia com que a animosidade contra o servio das armas

    aumentasse.

    Os soldados retornados estavam apresentando mutilaes fsicas e/ou mentais.

    Cegos, pernetas, manetas, alienados eis a os bravos cearenses recambiados do

    Paraguai, comentava um annimo que assistira um desembarque de soldados retornados

    no cais da capital do Cear. Essas notcias de horror se espalhavam por toda provncia

    como o vento, rpidas e em vrias direes.5 Tambm por essas razes, aleijes e

    loucura, os homens no queriam ir a guerra. Se ao menos o Imprio tivesse assistido

    essas pessoas como mandava a lei, se tivesse dado os ressarcimentos econmicos a

    esses mutilados, talvez a ojeriza diminusse ou ao pelos no aumentasse. s uma

    hiptese!

    O fato que quando o episdio da fuga liderada por Co chegou aos ouvidos do

    Dr. Leo Velloso, o presidente da provncia, ele ficou enfurecido dirigindo improprios

    as autoridades policiais locais. Os nimos se exaltaram. Na condio de humilhadas,

    essas resolveram interrogar Bernardo.

    Instaurou-se uma inquisio sobre a pessoa de Bernardo. O chefe de polcia da

    provncia, tambm delegado de Fortaleza, o Sr. Joaquim Fonteles, fez o papel do

    inquisidor; o subdelegado tambm fez parte do interrogatrio.

    - Bernardo, h tempos que estou a observ-lo, no tentes mentir! Por que

    cometeras tal crime contra ordem? Por que no queres salvar tua ptria?

    Como o ru no respondeu a nenhuma das perguntas, aquele dia foi pausado

    totalmente. Mas, na manh seguinte, apesar de soar muito frio, Bernardo apresentava

    um aspecto bem melhor e at deu bom dia para os cincos praas que ficaram de

    prontido em frente sua cela. Talvez fosse confiana em si mesmo.

    Co apesar de pobre tinha algum conhecimento das letras. Fora alfabetizado no

    se sabe como. Tinha conhecimento vulgar das leis imperiais e sabia na pele quais os

    estragos que o servio militar causava na vida dos pobres e livres, pois aquela no foi a

    primeira vez que o lao o capturou.

    5 Sobre as notcias de soldados cearenses recambiados da guerra do Paraguai ver a edio do jornal Fortalezense A Constituio do dia 11 de setembro de 1867. P.3.

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    Em 1851, quando o Brasil de Pedro II se digladiava com a Argentina de Rosas,

    Bernardo fora obrigado a combater at o fim do confronto, em 18526. Quando voltou

    para sua choa, no Riacho do Sangue, sua a me, sua sogra e seu varo haviam morrido

    de clera-morbus, e por milagres, sua mulher, que estava desfigurada pela fome,

    sobrevivera s calamidades.

    Retornando o caso. O interrogatrio foi retomado.

    - Vs falar hoje, Co?

    - Sim... senhor ...

    - Vou comear de outra maneira... Prometes dizer a verdade?

    -Sim... senhor...

    - Qual tua idade, filiao, local de nascimento e seu verdadeiro nome?

    - Senhor, a idade ao certo eu no sei. Mas quem sabe? Nas terras do Riacho do

    Sangue, quando um pobre consegue registrar os filhos, ele acaba esquecendo a data

    correta do nascimento, porque juntar dinheiro para pagar o papel que vai dar nome a

    alma vivente muito difcil. O mais comum no registrar... No serto existem

    almas!... Mas, acho que tenho uns quarenta e tantos... Quanto aos meus genitores... meu

    pai se chamava Bento Sombra Co, morreu muito cedo de tsica, e minha me, a d.

    Maria do Esprito Santo, faleceu quando eu estava na luta contra os Argentinos.

    -Por que liderou uma insurreio na minha cadeia? No vedes que tua priso e a

    de teus camaradas foram justas? O Brasil precisa de recrutas para se defender do

    maldito Lopez do Paraguai! Pensas? No desprezaste apenas a mim e a meus homens,

    a ptria tambm foi alvo de desdm.

    - Senhor nenhum indivduo pode ser privado de liberdade, exceto se tiver

    cometido um crime abominvel como assassinato por questes fteis ou roubo seguido

    de morte. Sei que pesam algumas condenaes sobre minha pessoa, mas se no fosse

    esse desenfreado recrutamento, se no fosse a violncia dele, eu no teria me tornado

    6 Sobre os episdios da Guerra entre Brasil e Argentina (1851-1852) Ler: BARROSO, Gustavo. A Guerra do Rosas (1851-1852). Fortaleza, Secult, 2000. Ver tambm do mesmo autor A Guerra do Lpez (1864-1870). Fortaleza, Secult, 2000

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    um transgressor... Se eu injuriei, agredi, insuflei, foi por defesa... Faz mais de dois

    meses que estou preso, j fui at julgado, e quero cumprir minha pena....

    - Quer dizer que somos os culpados? Digo-te que estamos cumprindo a lei...

    -Lei, senhor! Os inspetores de quarteiro, os soldados de polcia, os guardas

    nacionais, enfim, todas as autoridades que se empregaram na caa a rec

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