006 GUERRA DO PARAGUAI - Sobre os episdios da Guerra entre Brasil e Argentina (1851-1852) Ler: BARROSO, Gustavo. A Guerra do Rosas (1851-1852). Fortaleza, Secult, 2000.

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    Revista Historiar, ano I, n. I (2009)

    GUERRA DO PARAGUAI: OUTRAS HISTRIAS.

    Maria Regina Santos de Souza1

    RESUMO: Este artigo tem o propsito de mostrar como a forma literria mostra as convulses sociais trazidas pelos alistamentos arbitrrios de pessoas do estado do Cear para a "Guerra que o Paraguai", bem como ressaltar os aspectos scio-econmicos que marcaram a Provncia do Estado do Cear neste perodo. PALAVRAS-CHAVES: Guerra, Cear, sociedade, violncia ABSTRACT: This article has the purpose to show in literary way which the social upheavals brought by the arbitrary conscription of people from the state of Cear for war it Paraguay, as well as standing out the partner-economic aspects that regulated the province pertaining to the state of Cear. KEY WORDS: War, Cear, society, violence

    Ano do senhor de 1867. No tempo nublado de Fortaleza, natureza considerada

    estranha, acontecia uma revolta de presos na delegacia da cidade. Tratava-se de uma

    rebelio de recrutas, homens pegos a fora ou no lao, como se dizia na poca, para a

    lida militar. Os resultados finais da rebeldia foram quebradeira do velho

    estabelecimento (uma casa velha sem segurana adequada, a quem o governo provincial

    chamava de cadeia pblica) e a fuga de quarenta e cinco sujeitos potencialmente

    recrutveis.

    Na viso popular, a tal cadeia era chamada de oficina de satans, por ter fama

    de no recuperar ningum e oferecer uma vivncia inumana aos reclusos. O lder da

    rebelio chamava-se Bernardo Co, homem a quem os piores infortnios estavam

    espreita. No se sabia se seu segundo nome era uma alcunha ou sobrenome. O fato era

    que no Rol dos Culpados estava registrado Co.

    Antes do motim, Bernardo tinha sido condenado pelos crimes de Resistncia a

    Autoridades, Injria e Ferimentos Leves. Acrescentaram-lhe os delitos de insurreio,

    1 Graduao e Mestrado em Histria Social pela Universidade Federal do Cear (UFC). Atualmente doutorando do Programa de Ps-Graduao em Histria Social da Universidade Federal de Pernambuco de Pernambuco (UFPE) sob a orientao do Prof Dr. Marc Jay Hoffnagel. Bolsista CNPQ.

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    destruio de rgo pblico e facilitao de fuga. Aos olhos da lei, um transgressor que

    merecia cuidado especial...

    Mas, quais crimes teriam cometido os fugitivos? E Bernardo, por que no

    conseguira fazer parte dos procurados? Um crime a mais talvez no fizesse tanta

    diferena na sua desgraada vida. Na fuga ele escorregou nos detritos humanos comuns

    na Cadeia de Fortaleza2. Caiu e foi dominado por um policial que lhe apontava a

    carabina. Ficou imvel... No queria morrer!

    Na cidade no se comentava outra coisa seno a fuga em massa liderada pelo tal

    Co. Nos sarais, o medo fazia com que os homens de letras comentassem sobre a

    desordem na capital. Como podemos nos divertir agora com tantos facnoras vagando

    por a? Comentava um pattico juiz de direito.

    Facnora? Com excees de uns poucos assassinos e alguns larpios, a maior

    parte dos fugitivos era composta por sujeitos cujos crimes eram a pobreza e a falta de

    proteo de um poderoso local3. Sem o amparo de um grande, o homem comum do

    serto torna-se presa fcil para o recrutamento, palavra que arrepiava, mas tambm

    armava o sertanejo. Tempos difceis. Se no for falar demais, a escapada deu-se em

    plena a Guerra do Paraguai, especificamente no terceiro ano de combate, quando o

    Decreto dos Voluntrios de n 3.371 no despertava interesse em muitos. 4

    O decreto dos Voluntrios da Ptria oferecia para aqueles que quisessem

    participar do conflito terra, dinheiro, emprego pblico, soldos atrativos para os soldados

    e penses para os parentes destes em caso de morte, entre outros benefcios. Por que

    faltou interesse por parte da populao masculina?

    A falha no fora apenas da lei. Certo que a guerra demonstrou-se morosa

    demais, mas o desamparo (por parte do governo imperial) em relao soldados

    2 Sobre as condies sanitrias da Cadeia de Fortaleza Cf:MARIZ, Silviana Fernandes. Oficina de Satans: a Cadeia Pblica de Fortaleza (1850-1889). Fortaleza, 2004 (Dissertao de mestrado UFC/ Cear). 3 Para escrever sobre os pobres e livres cearenses do sculo XIX busquei inspirao em GEREMEK, Bronislaw. Os Filhos de Caim: vagabundos e miserveis na Literatura Europia (1400-1700). (Traduo Henryk Siewierski ). So Paulo: Cia das Letras, 1995. 4 Em relao as vantagens oferecidas pelo Decreto do Voluntrios da Ptria n 3.371 conferir: COSTA, Wilma Perez. A Espada de Dmocles: o Exrcito, a Guerra do Paraguai e crise do Imprio. So Paulo: HUCITEC, Unicamp, 1996. P.225-229.

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    retornados ou recambiados fazia com que a animosidade contra o servio das armas

    aumentasse.

    Os soldados retornados estavam apresentando mutilaes fsicas e/ou mentais.

    Cegos, pernetas, manetas, alienados eis a os bravos cearenses recambiados do

    Paraguai, comentava um annimo que assistira um desembarque de soldados retornados

    no cais da capital do Cear. Essas notcias de horror se espalhavam por toda provncia

    como o vento, rpidas e em vrias direes.5 Tambm por essas razes, aleijes e

    loucura, os homens no queriam ir a guerra. Se ao menos o Imprio tivesse assistido

    essas pessoas como mandava a lei, se tivesse dado os ressarcimentos econmicos a

    esses mutilados, talvez a ojeriza diminusse ou ao pelos no aumentasse. s uma

    hiptese!

    O fato que quando o episdio da fuga liderada por Co chegou aos ouvidos do

    Dr. Leo Velloso, o presidente da provncia, ele ficou enfurecido dirigindo improprios

    as autoridades policiais locais. Os nimos se exaltaram. Na condio de humilhadas,

    essas resolveram interrogar Bernardo.

    Instaurou-se uma inquisio sobre a pessoa de Bernardo. O chefe de polcia da

    provncia, tambm delegado de Fortaleza, o Sr. Joaquim Fonteles, fez o papel do

    inquisidor; o subdelegado tambm fez parte do interrogatrio.

    - Bernardo, h tempos que estou a observ-lo, no tentes mentir! Por que

    cometeras tal crime contra ordem? Por que no queres salvar tua ptria?

    Como o ru no respondeu a nenhuma das perguntas, aquele dia foi pausado

    totalmente. Mas, na manh seguinte, apesar de soar muito frio, Bernardo apresentava

    um aspecto bem melhor e at deu bom dia para os cincos praas que ficaram de

    prontido em frente sua cela. Talvez fosse confiana em si mesmo.

    Co apesar de pobre tinha algum conhecimento das letras. Fora alfabetizado no

    se sabe como. Tinha conhecimento vulgar das leis imperiais e sabia na pele quais os

    estragos que o servio militar causava na vida dos pobres e livres, pois aquela no foi a

    primeira vez que o lao o capturou.

    5 Sobre as notcias de soldados cearenses recambiados da guerra do Paraguai ver a edio do jornal Fortalezense A Constituio do dia 11 de setembro de 1867. P.3.

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    Em 1851, quando o Brasil de Pedro II se digladiava com a Argentina de Rosas,

    Bernardo fora obrigado a combater at o fim do confronto, em 18526. Quando voltou

    para sua choa, no Riacho do Sangue, sua a me, sua sogra e seu varo haviam morrido

    de clera-morbus, e por milagres, sua mulher, que estava desfigurada pela fome,

    sobrevivera s calamidades.

    Retornando o caso. O interrogatrio foi retomado.

    - Vs falar hoje, Co?

    - Sim... senhor ...

    - Vou comear de outra maneira... Prometes dizer a verdade?

    -Sim... senhor...

    - Qual tua idade, filiao, local de nascimento e seu verdadeiro nome?

    - Senhor, a idade ao certo eu no sei. Mas quem sabe? Nas terras do Riacho do

    Sangue, quando um pobre consegue registrar os filhos, ele acaba esquecendo a data

    correta do nascimento, porque juntar dinheiro para pagar o papel que vai dar nome a

    alma vivente muito difcil. O mais comum no registrar... No serto existem

    almas!... Mas, acho que tenho uns quarenta e tantos... Quanto aos meus genitores... meu

    pai se chamava Bento Sombra Co, morreu muito cedo de tsica, e minha me, a d.

    Maria do Esprito Santo, faleceu quando eu estava na luta contra os Argentinos.

    -Por que liderou uma insurreio na minha cadeia? No vedes que tua priso e a

    de teus camaradas foram justas? O Brasil precisa de recrutas para se defender do

    maldito Lopez do Paraguai! Pensas? No desprezaste apenas a mim e a meus homens,

    a ptria tambm foi alvo de desdm.

    - Senhor nenhum indivduo pode ser privado de liberdade, exceto se tiver

    cometido um crime abominvel como assassinato por questes fteis ou roubo seguido

    de morte. Sei que pesam algumas condenaes sobre minha pessoa, mas se no fosse

    esse desenfreado recrutamento, se no fosse a violncia dele, eu no teria me tornado

    6 Sobre os episdios da Guerra entre Brasil e Argentina (1851-1852) Ler: BARROSO, Gustavo. A Guerra do Rosas (1851-1852). Fortaleza, Secult, 2000. Ver tambm do mesmo autor A Guerra do Lpez (1864-1870). Fortaleza, Secult, 2000

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    um transgressor... Se eu injuriei, agredi, insuflei, foi por defesa... Faz mais de dois

    meses que estou preso, j fui at julgado, e quero cumprir minha pena....

    - Quer dizer que somos os culpados? Digo-te que estamos cumprindo a lei...

    -Lei, senhor! Os inspetores de quarteiro, os soldados de polcia, os guardas

    nacionais, enfim, todas as autoridades que se empregaram na caa a recruta, esses sim

    que so os fora da lei... Eu estava trabalhando no meu pequeno roado quando recebi

    voz de priso. Na minha cabea um trabalhador honesto no pode ser recrutado... Isto

    est na lei militar... Se h algum aqui est humilhado, essa pessoa sou eu... Muitos

    fugitivos tambm alegavam no ter cometido nenhuma transgresso, por que ento

    fomos presos?

    - Co, isso no vem o caso!

    Nesse momento um cachorro de rua adentrou o recinto por uma porta que

    estava entreaberta e avanou sobre o Sr. Joaquim. Este ficou imvel com a cena

    estranha. Rapidamente o animal contido e posto para fora da delegacia pela escolta e

    pelo subdelegado. Estes tambm acham incomum o ocorrido. L fora o co fica a rosnar

    como se estivesse espreita de algum.7

    -Senhor, dizem que os ces vem coisas! Diz Bernardo.

    -Tens o poder de entender os brutos, Bernardo Co?

    -No, senhor! Quando era criana l no meu distante Riacho do Sangue, ouvi

    muitas histrias sobre o poder que os animais tm de prever o futuro... s vezes, dizia-

    se, que eles pressentem o mal...

    -Nunca ouvi falar nessa lenda... Para mim, tu assinas tua culpa a cada palavra

    dita...

    Esse comentrio perturbou o ru. A sabatina foi interrompida naquela manh,

    porque o inquisidor Joaquim ficou muito impressionado com a investida do cachorro

    sobre sua pessoa... Todavia, no dia seguinte, a investigao fora retomada com mais

    furor.

    7 CAMPOS, Moreira. Dizem que os ces vem coisas. Fortaleza:Editora UFC, 2002.

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    - Onde esto escondidos os teus compassas? Ou pensas que no desconfiamos de

    um regaste? Tua rebeldia no te levar a nada!

    -Senhor Joaquim, no sou rebelde. Minha vida e a dos colegas de cela foram

    desgraadas pelo lao... Represento um coletivo. Minha dor a mesma dor dos

    sertanejos do Riacho do Sangue, do Sobral, do Crato, de So Joo do Prncipe, dos

    citadinos de Fortaleza, enfim, de um sofrimento coletivo que vos falo...8

    - Bernardo Co conheci um padre muito sbio que certa vez me disse que na

    Grcia Antiga os heris se destacavam pelos excessos, sobretudo pelos excessos de

    coragem. Aviso-te que tu no ests entre os gregos... Teu excesso tua condenao...

    Diz-me onde esto os fugitivos? Sei que sabes... sinto que algo. Alguma coisa como

    uma nova rebelio ir acontecer. Estou com pressentimento que minha vida corre

    perigo... Ser que o animal raivoso de ontem veio anunciar esse mal?

    Um dos soldados que fazia a segurana da cadeia ao presenciar a conversa teve

    uma vertigem. Caiu desacordado sendo socorrido pelo prprio interrogador.

    -No foi nada, dr. Joaquim... Tive um calafrio quando o doutor repetiu o

    episdio do cachorro... Um homem que tem um sobrenome de Co, nascido no Riacho

    do sangue e conseguiu dar fuga a 40 presos sem ser notado... pode ter parte com alguma

    coisa que no de carne e osso....

    Uma longa pausa tomou conta do recinto... O silncio fora quebrado com

    entrada da companheira de Bernardo que aos prantos pedia que o soltassem..

    -Cala-te, mulher! No vs que aqui um lugar de ordem, diz o sr Joaquim.

    Queres o impossvel.

    -Senhor, chamo-me Cassandra... Por favor, gostaria que me concedesse uns

    instantes de prosa com meu Bernardo... pelo menos isso!

    O pedido foi atendido. Cassandra pediu ao seu homem que falasse a verdade,

    mas caso essa no existisse, que ele inventasse uma, que ele dissesse o que o chefe de

    polcia queria ouvir. 8 Sobre a concepo de que a Histria da Humanidade se faz pela rebeldia dos homens ler as tragdias gregas de SQUILO. Prometeu acorrentado. So Paulo: Martin Clarent, 2007; SFOLCLES. dipo Rei. So Paulo: Martin Clarent, 2007.

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    -Homem, tua vida est desgraada... Falas o que o chefe quer .... Lembra-te que

    tua desgraada a de toda tua famlia... Mesmo que no vs combater, a distncia j

    existe...Eu e teus filhos j estamos abandonados... A lida na roa no est dando para

    viver. A seca castiga e s tu conheces alguns segredos do roado. Se estivesses l

    poderia vagar a procura de trabalho extra para ns. Tentas diminuir a pena ... Pode ser

    que ns consigamos esperar... Estamos nos desfigurando pela fome... Inventa uma

    histria e safa-te!

    Suplicou em vo em nome dos cinco filhos. Bernardo no respondeu nada. Ela

    saiu desconcertada com o silncio do companheiro. Cassandra, realmente foi uma

    portadora de ms notcias. Os discursos do sofrimento e da fraqueza tambm mexeram

    com o ru. Contudo, este mesmo de corao partido, continuou firme contra os abusos

    do servio militar obrigatrio.

    Co sabia que cada dia naquele lugar insalubre o desumanizava. O nico

    sentimento que o fazia o sentir-se racional era justamente um dos piores castigos

    dirigidos a raa humana, a solido. Ela o corroia e as vezes colocava dvidas em sua

    mente de tit. Pensava na famlia. J no dormia mais..9.

    O subdelegado Hilrio Albano aconselhou Bernardo a contar a verdade. Falou-

    lhe sobre a difcil empreitada da ordem pblica, do desgastante exerccio do poder, da

    humilhao que as autoridades sofriam por parte do Ministrio da Justia quando

    ocorriam fugas e rebelies, enfim, tentou arranca-lhe uma verdade que s existia na

    cabea dele, Hilrio.

    A idia de que uma nova sublevao iria acontecer e que a investida atentaria

    tambm contra vidas, isso consumia os chefes que presidiram o inqurito.

    -Tenho piedade de ti, Co! Disse o sr. Albano.

    A resposta veio em forma de enigma.

    - Senhor, no se d astcia a quem a possui...

    9Sobre a literatura da Solido e do Amor Cf: AUSTER, Paul. Timbuktu. So Paulo: Cia da Letras, 1999; CONCHE, Marcel. A Anlise do Amor. In: Anlise do Amor. So Paulo: Marins Fontes, 1998. P.9-28.

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    Essas palavras perturbaram o subdelegado. Ele, que at ento, ficara em dvida,

    passou a ter certeza de que um plano para destruir a cadeia estava a caminho. Era

    apenas questo de semanas, quem sabe at de dias. Haveria destruio e mortes -

    pensou Hilrio. A idia fez a coisa.10

    Os chefes de policia pensaram em dar um fim em Bernardo, mas poderiam ser

    descobertos e terem suas situaes pioradas. Mas, chegaram concluso de que a pior

    punio para o ru era mand-lo a guerra.

    De fato para os pobres e livres das provncias brasileiras, a condio de recruta

    fosse talvez uma das mais monstruosas penas aplicada ao homem comum. Que sujeitos

    em s conscincia queriam viver longe da famlia e do trabalho sofrendo castigos fsicos

    e psicolgicos dos seus superiores sem receber nada em troca? O servio militar um

    trabalho rduo no qual o indivduo quase no tem soldos. Era realmente um

    castigo.Disso as autoridades que julgavam Bernardo Co sabiam muito bem.11

    - Bernardo, vamos te mandar a guerra! No adiantas querer fugir, porque desta

    vez nem tua magia vai te salvar. Se tentares desertar quando j estiveres nas fileiras, j

    sabes o que acontece com os desertores, no mesmo? Grita a voz srdida do chefe.

    O ru ficou imvel. A autoridade estava referindo-se ao fuzilamento e a

    pranchada, penas dirigidas aos desertores e/ou traidores. Esta ltima consistia em

    espancamento do desertor at a morte com uma espada de prancha. Isso causava

    horror entre a soldadesca, no entanto, tal castigo nunca impediu que as deseres

    acontecessem.12

    O certo que ano de 1867 foi uma data importante nos tempos da guerra entre

    Brasil e Paraguai. O governo imperial faz uso do Artigo Cento e Um Pargrafo Oitavo

    da Constituio Brasileira que dizia perdoar os rus que esto cumprindo na cadeia da

    Capital do Cear, desde que eles se ofeream voluntariamente para o conflito 10 HEGEL. G.W.F. OS PENSADORES , coletnea. So Paulo: Nova Cultural, 1996.11Em relao ao Recrutamento no Cear no tempo da Guerra do Paraguai ver: RAMOS, Xisley de Arajo. Por trs de uma fuga nem sempre h um crime: o recrutamento a lao e os limites da ordem no Cear (1850-1875). Fortaleza, 2003. (Dissertao de mestrado UFC/ Cear). ; SOUZA, Maria Regina Santos de.Impactos da Guerra do Paraguai na Provncia do Cear (1865-1870). Fortaleza, 2007. (Dissertao de mestrado UFC/ Cear). ; SODR, Nelson Werneck. Histria Militar Brasileira. Rio de janeiro: Civilizao Brasileira, 1979. 12 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva . Maldita Guerra: uma nova historia da guerra do Paraguai. Cia das Letras, 2002.

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    paraguaio.13 Essa no era a primeira vez que o imprio utilizou-se deste expediente para

    angariar braos para a guerra. Seja como for, esse foi um momento impar na histria do

    Cear, pois alm de Fortaleza, outras cidades da provncia registraram presos ansiosos

    por uma vaga nas fileiras. Todavia, nem todo condenado pde participar dos

    combates.

    Os transgressores que atentaram contra a vida de algum parente ou algum a

    quem devesse respeito, por exemplo, no lhes era permitido a entrada nas fileiras.

    Aqueles que no tivessem cumprido um tero da condenao e no tivessem bom

    comportamento, tambm lhes era negado o alistamento voluntrio para guerra. Nesta

    exigncia, Bernardo no se encaixava, afinal estava sendo acusado de ser lder de uma

    insurreio. Mesmo assim, foi alistado como voluntrio da ptria.

    distncia da cadeia pblica at o porto de Fortaleza era longa. Como nos

    antigos autos de condenao, Bernardo foi conduzido, seguido por uma multido, at

    onde se encontrava a embarcao. Ele tentou reagir, mas as correntes nas mos

    impediram, de certa forma, sua habilidade. Uma vez imobilizados os membros

    exteriores, a lngua entrou em ao. Durante o cortejo, o condenado diz palavras

    ofensivas as autoridades, e insuflava em vo as levas de almas que assistiam impotente

    aquela humilhao.

    Fazer o qu? Os expectadores eram em maior nmero, mas a escolta tambm

    estava numerosa e armada, afinal um preso com a fama de Bernardo carecia de total

    cuidado.

    Nunca se viu tantos soldados armados. Era chegada a hora da partida, mas

    Bernardo ajoelhou-se gritando:

    - Meus irmos, no sou voluntrio, sou involuntrio, vs bem sabeis!

    -Cala-te pobre-diabo! Grita uma voz autoritria.

    -Eu sou um homem livre de corpo e alma... Se fiz o que fiz.. Fiz em nome da

    liberdade. Nem os filhos de Caim merecem tal castigo... No me arrependo dos meus

    13 Livro de Avisos dos diversos Ministrios. Serie: ofcios recebidos. Livro. N 16. Ofcio enviado em 01/06/1867. Pblico Arquivo do Cear (APEC).

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    atos... J estou morto, porque um ser que no pode opinar sobre seu prprio destino no

    deve viver.

    Dois soldados o arrastaram at o Paquete Guar. Bernardo pulou ao mar e uma

    onda o engoliu. A multido ficou atnita. O desespero na re-captura do ru foi em vo.

    A confuso durou meia-hora. O corpo de Co apareceu boiando. Acorrentado pelas

    mos no podia nadar... Foi suicdio!

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