?· Web viewO final do século XIX também foi marcado pelo desenvolvimento da extração e exportação…

Download ?· Web viewO final do século XIX também foi marcado pelo desenvolvimento da extração e exportação…

Post on 07-Feb-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

TPICOS DE HISTRIA REGIONAL PARA ENSINO DE HISTRIA NA EDUCAO BSICA: ERVA-MATE E GUERRA DO PARAGUAI

SOUZA, Roney Salina de

Supervisor de Iniciao Docncia PIBID-UFGD- subprojeto Histria, Dourados, MS, roneysalina@hotmail.com.

RESUMO: Este relato trata-se de minha experincia ao longo de dez anos com ensino de histria regional na Escola Antonia da Silveira Capil, de 2005 a 2015. No pretendo abordar aqui todos os temas, e mas especialmente a questo da erva-mate e a Guerra do Paraguai, pois so deveras importantes para os alunos da Educao Bsica, o primeiro faz parte do quotidiano dos usos e costumes dos educandos com o terer ou chimarro, o segundo desperta interesse na configurao da fronteira do Brasil com o Paraguai. Fao um panorama histrico de cada um destes temas e relaciono-os entre si, e, ao final menciono a metodologia que pude fazer em sala de aula para o ensino dos mesmos, as dificuldades de distribuio de material para as escolas e o aprendizado dos alunos.

PALAVRAS-CHAVE: metodologias, histria, sul-mato-grossense.

INTRODUO

Este trabalho um relato de dois temas da historiografia de Mato Grosso do Sul associados ao currculo de histria regional no mencionado estado: Guerra da Trplice Aliana (1864-1870) e economia ervateira. Fao um histrico cronolgico destes temas relacionando-os com uma historiografia bsica existente, muito embora aqui no haja espao suficiente para tratar mais profundamente destes temas, bem como outros no relacionados no currculo.

Como sou professor na rede a mais de dez anos, entre 2005 a 2015, este artigo um relato de minhas experincias, dos caminhos que utilizei ao longo deste perodo, para tratar destes temas importantes, no apenas porque fazem parte da lista tcnica de contedos, mas pela proximidade histrica que o aluno possui com a regio, bem como pelo desafio de se ensinar histria regional com pouco ou nenhum material didtico.

Para o professor que trabalha com Ensino de Histria de Mato Grosso do Sul na Rede Estadual de Ensino, como dito, no h material didtico para o Ensino Mdio, com exceo feita ao Ensino Fundamental. Assim minha primeira metodologia, a partir de 2005 foi escrever uma apostila com os temas mais recorrentes no ensino de histria regional e disponibiliz-la para os alunos tirarem cpias. Atualmente com vrias redes sociais, encaminho a apostila virtualmente, muitos acabam usando-a no telefone celular e/ou imprimindo-a. A partir deste do base da apostila, aprimorei as duas partes (erva-mate e Guerra do Paraguai) na forma deste artigo como relato de experincia.

Historicamente em 1856 houve um acordo entre o Brasil e o Paraguai para a livre navegao no rio Paraguai, bem como navios de outros pases. Em 1861 foi instalada a Alfndega de Corumb, 1862 o local foi elevado categoria de vila. As atividades comerciais abriram-se. Todavia este comrcio sofreu uma retrao com a Guerra da Trplice Aliana, pois a navegao foi bloqueada, voltando na dcada de 1870.

Esta guerra refletiu uma carncia de resoluo de limites e fronteiras entre as coroas ibricas, desde o perodo colnia, que ficou para ser resolvida pelos nascentes Estados Nacionais do sculo XIX.

No processo das independncias latino-americanas o Brasil tornou-se uma monarquia unificada, a Amrica Espanhola fragmentou-se em vrias repblicas. Ao sul, o antigo vice-reino do Rio da Prata dividiu-se em Argentina, Bolvia, Paraguai e Uruguai.

A Argentina possua uma elite de unitaristas bonaerenses, comerciantes de exportao e importao, que tinham um projeto unificador com um Estado que se abrange o territrio do antigo vice-reino do Rio da Prata, incorporando o Paraguai (DORATIOTO, 2002, p. 471).

O Brasil possua interesse na navegao do rio Paraguai, comrcio de importao e exportao, entradas e viagens. Era tambm importante que esta navegao no ficasse nas mos de um nico pas. Assim que o Paraguai se tornou independente, 1811, o Brasil foi o primeiro a reconhecer sua autonomia republicana, dado o interesse brasileiro em um caminho fluvial para o Mato Grosso.

O Paraguai sabia que o Brasil tinha grande peso, embora no tivesse um exrcito profissional, mas se quisesse um caminho para o Atlntico o caminho era o rio Paraguai, era preciso aliados, pois a Argentina ainda era uma ameaa, mesmo que silenciosa.

Mais ao sul no Uruguai duas correntes de foras se articulavam, os blancos e os colorados, aqueles, comerciantes ligados ao Paraguai, estes, latifundirios criadores de gado e contrabando. Doratioto afirma que se houvesse uma guerra, e se os paraguaios sassem vitoriosos incorporariam mais territrios e ainda teriam um porto martimo em Montevidu, fruto da promessa da aliana com os blancos (op. cit., 2002, p. 475).

O conflito foi iniciado por Solano Lopes, do lado paraguaio, que invadiu o Mato Grosso em 1864. Seu desfecho envolveu tropas brasileiras, argentinas e uruguaias contra o Paraguai. Este foi um conflito complexo, envolveu toda uma correlao de foras na definio de fronteiras no Prata e na formao de Estados Nacionais modernos. O final da guerra para a regio do SMT trouxe a reabertura da navegao do rio Paraguai, consequentemente do comrcio.

Optei por essa verso mais revisionista, pois os trabalhos mais atuais apresentam mais fontes e metodologias mais rigorosas de pesquisa. H outras correntes, como a positivista e nacionalista do incio do sculo XX, bem como a de esquerda dos anos 1970, que insiste na Inglaterra como causadora da guerra, mas ambas no se configuram por falta de fontes.

No ps-guerra intensificaram-se as migraes e fixaes de diversos grupos para o SMT destacando-se ex-combatentes paraguaios, que posteriormente vieram a ser trabalhadores na explorao da erva mate e em fazendas de gado. Do leste vieram os paulistas e mineiros, anteriormente ligados ao consumo de gado na Corte do Rio de Janeiro, estabeleceram-se na regio atual de Santana do Paranaba, fronteira com Minas Gerais, localidade tambm chamada Serto dos Garcia.

De mais ao norte vieram os cuiabanos e do sul os rio-grandenses-do-sul e paranaenses. Este perodo sempre bom recordar o final do sculo XIX e incio do XX, correspondendo tambm queda da monarquia brasileira e ascenso da Repblica, da passagem da mo de obra escrava para livre.

Estas migraes das regies fronteirias com o SMT tinham interesse em fixar moradia, buscando uma vida nova com propriedade da terra, uma economia de subsistncia em geral baseada na pequena pecuria bovina, explorao de erva-mate e plantao de vveres, o que custou aos ndios locais, quase extino na luta pelos seus territrios contra estes migrantes.

Da populao mais ao norte, cuiabanos, que vinham criar muares, muitos eram foragidos e comerciantes estabelecendo suas fazendas na parte pantaneira. A fazenda era extensiva, perifrica e de pouco lucro at o incio do sculo XX, no garantiam o abastecimento interno, que ainda no era suprido nem pelas poucas lavouras e precisavam alternar-se com a uma produo indgena bem como por meio de comrcio (CORRA, 1999, p. 93).

O final do sculo XIX tambm foi marcado pelo desenvolvimento da extrao e exportao da erva mate no sul do SMT para vrias partes do globo, inicialmente para Argentina, depois Europa. Thomaz Laranjeira conseguiu uma concesso para explorar os ervais em todo o extremo sul do SMT. Como se tratava de ervais extensos exigiu do poder pblico uma extensa faixa de terra com concesso com tempo longo (ARRUDA, 1997, p. 17).

Em 1892 Laranjeira associou-se ao poder pblico, Estado de Mato Grosso, bem como ao Banco Rio e Matto Grosso criando a Companhia Matte Laranjeira. O presidente do banco era Joaquim Murtinho, irmo do presidente do Estado de Mato Grosso, Manoel Murtinho.

A sede da empresa foi transferida para um porto criado margem esquerda do rio Paraguai, chamado Porto Murtinho, para exportam parte da erva, tambm exportada pelo Porto de Concepcin, mais ao sul do rio Paraguai (CORRA FILHO, 1925, p. 27, 40).

Alm de Thomaz Laranjeira, deve-se mencionar a existncia de pequenos produtores que escoavam a produo para compradores no Paraguai bem como para a prpria empresa. Era uma grande empresa que com o apoio do Estado na concesso de ervais e terra, facilidades fiscais, baixos impostos, obtinha lucros, e, se no fossem pequenos exploradores paralelos a esta economia seria quase que um monoplio (op. cit., 1925, p. 30).

Em geral a histria regional muito direta aos alunos de Mato Grosso do Sul, que em sua grande maioria tm famlias em vrias partes do estado, alguns migrantes recentes, outros de longa data. Logo, nos debates, muitos se identificam com falas como minha famlia de Corumb, Porto Murtinho, j fui no rio Paraguai, conheo um p de erva-mate, ento aquele monumento em frene ao shopping de Campo Grande de um ndio guaikur?, oraes sempre comuns ao longo das conversas.

Como mencionado na introduo, este histrico faz parte da primeira metodologia usada por mim em aulas de histria regional entre 2005 e 2015, aps expor cada tema em sala de aula, foram feitas leituras e debates acerca destes episdios.

Embora o currculo esteja divido por etapas entre as trs sries do Ensino Mdio, a metodologia mais dinmica ocorre na terceira srie. Na primeira e segunda sries foram feitas abordagens mais gerais, sem muitos detalhes, apenas com apresentaes em slides ou em lousa.

Todavia, com alunos de terceiro ano, terceira srie, em fins do ano letivo, os temas agitam-se em diferentes problematizaes. Em cada sala de aula so divididos grupos com as temticas referidas, cada grupo com um lder responsvel pela organizao do material de pesquisa e diviso de partes.

A criatividade fica livre para tratar do contedo associado a msicas, poesias ou criao de vdeos.

Por exemplo, o tema dos ndios no Sul de Mato Grosso com a cano Quyquyho com Tet Espndola, a regio do Pantanal ambientada com Comitiva Esperana de Paulo Simes, debate sobre o rio Paraguai com A fonte a iluso de Geraldo Espndola, a Noroeste do Brasil com Serpenteava o Trem de Dagata e os Aluzios, entre outros. Da erva-mate, sempre so feitas oficinas de terer e chimarro, bebidas coletivas, em roda, feitas com a planta, da Guerra do Paraguai a confeco de mapas histricos so interessantes, pois ambas oficinas ampliam o aprendizado, j que os alunos manipulam o conhecimento.

Os alunos so avaliados pela apresentao de seminrios, cujo material da produo dos mesmos baseia-se na apostila, no conhecimento disponvel na biblioteca da escola ou na rede internet.

Esta metodologia insuficiente, se os temas tivessem material prprio para essa etapa de ensino, a abordagem seria mais eficiente, mesmo porque a produo historiogrfica no Mato Grosso do Sul tem sido sistemtica onde h cursos de Histria e em ps-graduaes na rea.

Com o aparecimento Programa Institucional de Bolsas de Iniciao Docncia Pibid em 2009, na rea de Histria, o encontro entre a Universidade, a produo acadmica e a escola tem ficado mais intensa em forma de oficinas de histria regional.

No caso em questo, s para citar mais um exemplo, foram feitas no ano corrente de 2014, por acadmicos de Histria da UFGD na Escola Antonia da Silveira Capil, onde trabalho, com o tema diviso de Mato Grosso e criao de Mato Grosso do Sul. Aps ser definido o contexto do contedo problematizado com o hino de Mato Grosso do Sul, analisou-se a msica e a letra, percebeu-se que mesmo o SMT histrico tendo uma gente audaz, este espao mais que matas, campos ou Pantanal, e, sua trajetria foi feita por lideranas como Tenente Antnio Joo ou os Guaicurus, mas, no apenas elas; acomodam-se aqui muitos outros annimos, que , tal qual os alunos, foram e so agentes de seus prprios caminhos.

REFERNCIAS

ARRUDA, Gilson. Frutos da Terra: os trabalhadores da Mate Laranjeira. Londrina-PR: Ed. da Universidade Estadual de Londrina. 1997.

CORRA FILHO, Virglio. sombra dos hervaes mattogrossenses. So Paulo: Ed. S. Paulo, 1925.

CHIAVENATO, Jlio Jos. Genocdio americano: a guerra do Paraguai. So Paulo: Brasiliense, 1979.

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de Histria: fundamentos e mtodos. SP: Cortez, 2004.

BORGES, Fernando T. M. Do extrativismo pecuria: algumas observaes sobre a histria econmica de Mato Grosso (1870 a 1930). 2 ed. So Paulo: Scortecci, 2001.

CORRA, Lcia Salsa. Historia e fronteira: o Sul de Mato Grosso, 1870-1920. Campo Grande: Ed. UCDB, 1999.

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova histria da Guerra do Paraguai. So Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Recommended

View more >