?· SOLANGE FAVERO OENNING CONCEPÇÃO DE MATEMÁTICA SEGUNDO UMA PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA: UMA REFLEXÃO…

Download ?· SOLANGE FAVERO OENNING CONCEPÇÃO DE MATEMÁTICA SEGUNDO UMA PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA: UMA REFLEXÃO…

Post on 20-Jan-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARING CENTRO DE CINCIAS EXATAS

PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM EDUCAO PARA A CINCIA E O ENSINO DE MATEMTICA

SOLANGE FAVERO OENNING

CONCEPO DE MATEMTICA SEGUNDO UMA PERSPECTIVA

FENOMENOLGICA: UMA REFLEXO SOBRE O ALUNO CONCEITUADO COMO PROBLEMA PELA ESCOLA

Maring 2006

SOLANGE FAVERO OENNING

CONCEPO DE MATEMTICA SEGUNDO UMA PERSPECTIVA FENOMENOLGICA: UMA REFLEXO SOBRE O ALUNO

CONCEITUADO COMO PROBLEMA PELA ESCOLA

Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao para a Cincia e o Ensino de Matemtica, da Universidade Estadual de Maring, para obteno do ttulo de Mestre.

Orientador: Prof. Dr. Marcos Cesar Danhoni Neves

Maring 2006

SOLANGE FAVERO OENNING

CONCEPO DE MATEMTICA SEGUNDO UMA PERSPECTIVA FENOMENOLGICA: UMA REFLEXO SOBRE O ALUNO

CONCEITUADO COMO PROBLEMA PELA ESCOLA

Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Educao para a Cincia e o Ensino de Matemtica, da Universidade Estadual de Maring, para obteno do ttulo de Mestre.

Aprovado em BANCA EXAMINADORA

Orientador: Prof. Dr. Marcos Cesar Danhoni Neves ______________________________ Centro de Cincias Exatas Universidade Estadual de Maring 1 Examinador: Prof. Dr. Washington Luis Pacheco de Carvalho ______________________________ Unesp Campus de Ilha Solteira 2 Examinadora: Prof. Dr. Regina Maria Pavanello ______________________________ PCM Universidade Estadual de Maring

Dedico este trabalho

s pessoas que esto sempre presentes, mesmo ausentes; s pessoas que dividem conosco as angstias, decepes, incertezas e conquistas; queles que nos mostram, de alguma forma, que somos importantes, e que o que realmente vale, so as amizades que conquistamos.

AGRADECIMENTOS

Agradeo a todas as pessoas que contriburam direta ou indiretamente para a realizao

deste trabalho;

Agradeo, em especial, ao meu orientador, ao prof Dr. Marcos Cesar Danhoni Neves.

[...] verdade que o mundo o que vemos e que, contudo,

precisamos aprender a v-lo (Merleau-Ponty).

RESUMO

O presente trabalho prope-se a investigar o fenmeno o que isto, a matemtica? segundo a concepo de alunos de oitava srie do Ensino Fundamental de uma Escola Pblica Estadual de Maring, PR. O tema da pesquisa fundamenta-se nas inmeras reclamaes e angstias perdidas na contingencialidade do viver escolar de professores que atuam nesse nvel de ensino e que dizem respeito ao desajuste comportamental de uma parcela de alunos em sala de aula. Para podermos chegar s essncias do fenmeno pesquisado, foi utilizada a modalidade de pesquisa fenomenolgica-qualitativa, que tem como foco a vivncia do sujeito em seu mundo-vida (lebenswelt). Procuramos desvelar o fenmeno em sua essncia, buscando o que faz sentido para o sujeito. Para a obteno dos dados, realizamos entrevistas com os sujeitos que vivenciaram esse fenmeno. Os alunos partcipes da pesquisa so considerados pela escola professores, equipe pedaggica como alunos desinteressados, que no participam das aulas como o esperado e que tumultuam as turmas, dificultando, conforme a linha de visada da escola como instituio, o trabalho em sala de aula. As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas na linguagem dos sujeitos, para obtermos as descries ingnuas dos sujeitos, sem, portanto, uma anlise prvia. De posse dos discursos, procedemos s anlises ideogrficas e nomotticas, e efetuamos a reduo fenomenolgica, buscando os invariantes que fundamentam o fenmeno intencionado originalmente. Os resultados expressam um desinteresse no somente pela matemtica, mas pela escola, em sua estrutura mais geral, evidenciado pelo comportamento indexado com baguna, mas que no entendido como tal. Ao final, fazemos uma interpretao das concepes dos alunos acerca da matemtica e da escola, inserindo-as dentro do contexto escolar e da vivncia de cada sujeito.

Palavras-chave: Fenomenologia. Mundo-vida. Anlise ideogrfica. Nomotetismo.

ABSTRACT

This study aims at investigating the phenomenon "What is this, Mathematics ?", according

to 8th Grade students' conception of a Public Fundamental School in Maring - state of

Paran, Brazil. The subject of the study is based on uncountable complaints and anguish

which were lost in teachers' eventuality of living in school context and that are related to a

portion of students' behavior in the classroom. In order to accomplish the work, the

qualitative-phenomenological research method was used, focusing the individual's

existence in his/her lebenswelt. The phenomenon in its own essence was unveiled,

searching the individual's sense of living. Interviews with individuals who experimented

that phenomenon were carried out in order to collect the data, The students under research

were considered to be "uninterested" by the teachers and by the pedagogical team -

students who did not take part in the classroom activities as expected, disrupting the class,

making the classroom work more difficult, according to the school vision as an institution.

The interviews were taped and transcribed in the individuals' language, in order do describe

their real ingenuity, without a previous analysis. After that, ideographic and nomothetic

analyses were performed, followed by the phenomenologic reduction, searching for the

invariables which ground the intended phenomenon. Results show that there is a lack of

interest towards both Mathematics and the whole school structure, expressed by the

behavior entitled "mess", although it is not understood as such. Finally, students'

conceptions of school and Mathematics were interpreted according to their school context

and to their own existence.

Key words: Phenomenology. Lebenswelt. Ideographic analysis. Nomothetism.

LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 Anlise Ideogrfica do Sujeito A..................................................... 78

QUADRO 2 Anlise Ideogrfica do Sujeito B..................................................... 91

QUADRO 3 Anlise Ideogrfica do Sujeito C..................................................... 105

QUADRO 4 Anlise Ideogrfica do Sujeito D..................................................... 117

QUADRO 5 Anlise Ideogrfica do Sujeito E..................................................... 127

QUADRO 6 Anlise Ideogrfica do Sujeito F..................................................... 140

QUADRO 7 Categorias Iniciais........................................................................... 147

QUADRO 8 Categorias Amplas........................................................................... 149

SUMRIO

INTRODUO................................................................................................................. 10 CAPTULO I: A FENOMENOLOGIA COMO FONTE DE INVESTIGAO PARA A PESQUISA EM EDUCAO: PROCEDIMENTOS TERICOS E METODOLGICOS..................................................................................................

12

CAPTULO II: A MATEMTICA NA CONCEPO DOS PESQUISADORES EM EDUCAO................................................................................................................

22

CAPTULO III: A ESCOLA E OS JOVENS: BUSCANDO SIGNIFICAES NA ESCOLARIZAO MATEMTICA DE ALUNOS DE 8 SRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL ............................................................................................................

28

3.1 SITUANDO OS SUJEITOS EM SEU AMBIENTE ESCOLAR..........................................................................................................................

28

3.2 OS DISCURSOS DOS ALUNOS DE 8 SRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL..............................................................................................................

30

3.2.1 Discurso do Sujeito A ............................................................................................... 30 3.2.2 Discurso do Sujeito B................................................................................................ 36 3.2.3 Discurso do Sujeito C................................................................................................ 46 3.2.4 Discurso do Sujeito D................................................................................................ 56 3.2.5 Discurso do Sujeito E................................................................................................. 63 3.2.6 Discurso do Sujeito F................................................................................................. 70 CAPTULO IV: ANLISE DOS DISCURSOS DOS ALUNOS DE 8 SRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL.............................................................................................

75

4.1 DESCRIO IDEOGRFICA E NOMOTTICA..................................................... 75 4.2 ANLISE IDEOGRFICA DOS DISCURSOS DOS ALUNOS AS UNIDADES DE SIGNIFICADO.......................................................................................

77

4.2.1 Anlise ideogrfica do sujeito A ............................................................................... 78 4.2.2 Anlise ideogrfica do sujeito B................................................................................ 91 4.2.3 Anlise ideogrfica do sujeito C................................................................................ 105 4.2.4 Anlise ideogrfica do sujeito D................................................................................ 117 4.2.5 Anlise ideogrfica do sujeito E ............................................................................... 127 4.2.6 Anlise ideogrfica do sujeito F................................................................................ 140 4.3 ANLISE NOMOTTICA.......................................................................................... 146 4.3.1 Categorias iniciais...................................................................................................... 146 4.3.2 Categorias amplas ..................................................................................................... 149 4.3.3 Interpretao das categorias....................................................................................... 150 CAPTULO V: ALUNOS, ESCOLA E A MATEMTICA EM PERSPECTIVA................................................................................................................

156

REFERNCIAS................................................................................................................ 158

INTRODUO

O propsito deste trabalho buscar as concepes dos alunos de 8 srie do Ensino

Fundamental de uma escola pblica estadual de Maring, PR, acerca do o que isto, a

matemtica?, para compreendermos os motivos e/ou razes pelas quais esses alunos

apresentam determinadas atitudes em relao escola e matemtica, no sentido de no

participarem do processo de ensino-aprendizagem, demonstrando, a princpio, desinteresse

pelas aulas e pela aprendizagem, como relatam seus professores.

No captulo I, apresentamos algumas das inquietaes que contriburam para a

escolha deste tema de pesquisa, bem como os procedimentos tericos e metodolgicos

utilizados para chegarmos s concepes de matemtica de alunos de 8 srie do Ensino

Fundamental, atravs da reduo fenomenolgica.

No captulo II, as concepes de matemtica de alguns pesquisadores em educao

so apresentadas, bem como algumas das preocupaes/reflexes relativas ao ensino de

matemtica com o processo de aprendizagem escolar dessa disciplina.

No captulo III, buscamos situar os sujeitos da pesquisa em seu ambiente, em seu

mundo-vida ou lebenswelt. Apresentamos inicialmente uma descrio da escola onde a

pesquisa foi realizada. Os discursos dos sujeitos referentes ao tema O que isto, a

matemtica? vm logo depois.

No Captulo IV, realizamos as anlises ideogrfica e nomottica dos discursos dos

sujeitos, destacando as unidades de significados que emergem dos discursos, que so as

idias que fazem sentido para o pesquisador, luz de uma interrogao que permeia a

pesquisa qualitativa fenomenolgica, para, enfim, chegarmos s categorias que do

subsdios para a interpretao fenomenolgica da questo o que isto, a matemtica?, na

concepo de alunos de 8 srie do Ensino Fundamental.

Finalmente, no captulo V, procedemos s interpretaes nascidas a partir das

categorias elaboradas significativamente nos discursos dos alunos. Chegamos, ento, a uma

interpretao do fenmeno o que isto, a matemtica? na concepo de alunos de 8 srie

do Ensino Fundamental.

CAPTULO I A FENOMENOLOGIA COMO FONTE DE INVESTIGAO PARA A PESQUISA EM EDUCAO: PROCEDIMENTOS TERICOS E METODOLGICOS

Como professora de Ensino Fundamental e Mdio, atuando h dez anos em sala de

aula (1995-2005), nasceu uma preocupao e angstia diante de tantos obstculos

encontrados por ns, professores, no dia-a-dia dessa prtica. Dentre os obstculos, o que me

causava maior inquietao era o desinteresse de muitos de nossos alunos pela formao

escolar. Muitos deles recusavam-se a participar das aulas, a realizarem as atividades

propostas, eram indisciplinados, e muitas vezes, nem ao menos retiravam os materiais da

mochila quando estavam em sala de aula.

Instigada por uma busca na compreenso deste estado de coisas, percebi que era

necessrio um olhar diferenciado, no sendo suficiente, porm, apontar os culpados por

situao desse gnero. Portanto, tornava-se necessrio tentar descobrir o que conduzia

nossos alunos a essas atitudes. Nasceu, assim, a problemtica desse trabalho, com o

propsito de buscar as concepes de alunos de 8 srie do Ensino Fundamental de uma

escola pblica estadual de Maring (Pr), acerca do o que isto, a matemtica? para

compreendermos os motivos e/ou razes pelas quais esses alunos apresentam essas atitudes

em relao escola e matemtica, considerando, como afirma Severino (1993, p. 113),

que o trabalho cientfico deve ser pessoal, no sentido de que a temtica deve ser realmente

uma problemtica vivenciada pelo pesquisador.

Divisando como horizonte esta problemtica da indisciplina e do desinteresse dos

alunos pela escola e pela aprendizagem escolar, optamos pela busca do desvelar das

concepes de matemtica que emergem dos discursos de nossos alunos de 8 srie do

Ensino Fundamental, para que pudssemos ter acesso compreenso de algumas atitudes e

das concepes que estes alunos apresentam no dia-a-dia escolar. Conforme Segurado,

Montevalar e Ponte (2005) [...] a importncia das concepes reside no fato de elas

influenciarem a forma como os alunos pensam, abordam e resolvem as tarefas matemticas,

como estudam e como participam nas aulas.

A opo pela busca das concepes de matemtica no cotidiano escolar de alunos de

8 srie do Ensino Fundamental, de uma Escola Pblica Estadual de Maring, recai sobre

aqueles alunos considerados alunos-problema pela equipe pedaggica, direo e

professores, e, portanto, habitantes de um territrio de excluso dentro do prprio sistema

escolar. Por alunos-problema consideramos aqui os alunos que demonstram desinteresse

em relao aprendizagem escolar, que so sistematicamente taxados de indisciplinados,

no apresentam desempenho escolar satisfatrio, no realizam as atividades propostas em

sala de aula ou fora dela, e, alm disso, dificultam o desenvolvimento das aulas.

Diante destas inquietaes, optamos por realizar a busca da compreenso das

concepes de matemtica em alunos de 8 srie do Ensino Fundamental, utilizando uma

abordagem qualitativa-fenomenolgica de inquirir os espaos das dvidas que rondam o

cotidiano escolar.

A compreenso do fenmeno O que isto a matemtica? na concepo de alunos

de 8 srie do Ensino Fundamental exige, necessariamente, uma pesquisa em que se busque,

na essncia, na experincia tal como vivida pelos sujeitos, os alunos, o que vivenciado e

sentido por eles nessa relao aluno-Matemtica. Esse entendimento das concepes de

matemtica dos alunos de 8 srie do Ensino Fundamental pode encontrar sua razo de ser

na modalidade de pesquisa fenomenolgica, pois esta valoriza a vivncia dos alunos,

buscando entender quais as concepes que os animam. Os discursos dos alunos, sujeitos

da pesquisa, adquirem importncia fundamental na perspectiva fenomenolgica. Ouvindo-

os, torna-se possvel desvendar as concepes que estamos buscando acerca da matemtica

escolar. Esse ouvir encontra na pesquisa fenomenolgica os caminhos para se chegar s

idias como desejadas, livres de pr-conceitos ou teorias estabelecidas a priori.

Salientamos, assim, a necessidade de uma busca de significados rigorosos na identificao

do fenmeno O que isto, a matemtica? na concepo de alunos de 8 srie do Ensino

Fundamental.

O pensar fenomenolgico um mtodo de investigao que, por si, pode conduzir

verdade do ser. Nessa modalidade de pesquisa, evidencia-se a necessidade de conduzir a

investigao com critrios de rigor, para garantir a exatido das afirmaes emitidas pelos

sujeitos pesquisados (BICUDO, 2000). Exige-se do pesquisador um livrar-se de pr-

conceitos que estabelecem o que para ser visto, como se faz em algumas teorias

positivistas (NEVES, 2002; EZZY, 2000), evitando, assim, uma concepo prvia de

mundo. Exige um esforo que consiste em eliminar todo tipo de idealizaes e

generalizaes envolvidas nas suas atividades lgicas, [...] em considerar os fatos fora de

todos os preconceitos, de todas as teorias que, s vezes, os complicam, s vezes os

simplificam, mas sempre os deformam (GILLES, 1975, p. 19). Para tanto, o pesquisador

deve trabalhar com alguns aspectos que se destacam em seu campo perceptual e o

impressionam, ou seja, se impem ateno do pesquisador, despertam seu interesse.

O livrar-se de pr-conceitos denominado na fenomenologia como epoch, ou seja,

o mundo colocado em suspenso, entre parnteses, para buscarmos as vivncias dos

sujeitos em seu mundo-vida, ou lebenswelt (MARTINS; BICUDO, 1989). O mundo-vida

o mundo pr-reflexivo ou pr-objetivo, natural, espontneo (MARTINS; BICUDO, 1989).

O mundo pr-reflexivo coerente e precisa ser reconstrudo a partir da interpretao.

uma contemplao desinteressada, uma atitude desvinculada de qualquer interesse natural

na existncia das coisas do mundo. , ainda, a totalidade das percepes vividas pelo

sujeito. Husserl chegou a considerar o mundo vivido como a insero da conscincia de

forma cada vez mais indestrutvel. Com a colocao entre parnteses dos princpios

contingentes do objeto-de-saber (a matemtica escolar vivenciada por alunos de 8 srie do

Ensino Fundamental), diminui a vontade de dominao do mesmo (GILES, 1975, p. 23).

Faz-se necessrio, portanto, irmos--coisa-mesma (BICUDO

Recommended

View more >